Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Choro de bebé.

por Fernando Lopes, 30 Jan 14

O bebé do vizinho chora, mas não é um choro qualquer, antes aquela repontice própria de quem quer companhia, mimo, afago, murmúrio ao mesmo tempo pateta e tranquilizador. Ainda hoje recordo o som, o pegar ao colo, o colocá-la sobre a minha barriga, a pequena cabeça repousada no meu peito, o efeito tranquilizador do bater do meu coração que lhe tornava próxima a memória de sons longínquos. Adormeci-a e adormeci-me assim muitas vezes, pousados um no outro, a escutar apenas as melodias da nossa respiração. O som da porta ao lado traz, embrulhadas em doçura, as saudades que ainda hoje tenho de choro de bebé.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Olhos nos Olhos. (IV)

por Fernando Lopes, 29 Jan 14

A Aurora é das pessoas que me acompanham há mais tempo, um grupo que carinhosamente nomeei de «Marias da Fonte». Já se expôs, defendeu pontos de vista, partilhou angústias e glórias. É das que mais abriu a alma, me deu pancada quando merecia e estendeu mão amiga em momento de incerteza. Vale por muitas, e por isso apresenta este olhar único, pleno de limpidez e empatia. Uns olhos lindos, a condizer com o escasso que lhe conheço da alma. É mulher de várias facetas e a natureza premiou-a com um olho de cada cor, uma característica bela e rara, pois até nos olhos vale por duas. Obrigado, Aurora.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Oiçam.

por Fernando Lopes, 28 Jan 14

Uma velha entrevista de J. Rentes de Carvalho, o encanto de sempre do menino perante o mestre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das praxes, praxados e afins.

por Fernando Lopes, 28 Jan 14

Nos anos 80 as praxes eram uma quase ausência. Vieram pela democratização do ensino superior, pelas universidades privadas a querer exibir tradição inexistente. Com a proliferação de (re)cursos nos anos 90, o neto da Zulmirinha, caseira do sr. dr., filho do Tony, ladrilhador de 1ª, recentemente entrado em Engenharia de Minas com espantosa média de 9,5, sentiu-se igual à velha aristocracia. Vá de praxar, numa vingança de classes, ele que nunca viu a avó tomar banho, achava normal que se tapasse o forno com bosta, coçava os colhões em público enquanto escarrava, como sempre viu os seus fazerem. Mas era dr. ou eng. num qualquer curso em as propinas asseguravam percurso tranquilo a quem possuísse conhecimentos equivalentes ao Trivial Pursuite Junior. Como epidemia, propagou-se. Quem foi criado na bosta pode encher-se dos mais caros perfumes, mas a dita dificilmente lhe sairá da corrente sanguínea. E não, isto não é teoria classista, é educação básica, bem que escasseia da primária às velhas universidades. É necessário ser claro, a massificação do ensino falhou, senão na parte académica – e mesmo aí tenho sérias dúvidas – na formação cívica e de cidadania. Caso contrário as praxes seriam um capítulo negro votado ao esquecimento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bloga de luxo.

por Fernando Lopes, 27 Jan 14

Inveja, do invejável, por soliplass.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Conversando com a morte.

por Fernando Lopes, 26 Jan 14

- Que estás aqui a fazer? Vieste-me buscar?

- Nunca apareço sem ser convocada; vim ao teu apelo, inconsciente ou não.

- É hora de ir?

- Nunca aviso quando venho em missão. Esta é apenas uma visita de cortesia, de avaliação se assim quiseres.

- Não há maneira de te enganar?

- Muitos tentaram, nenhum conseguiu.

- Consigo gerir a minha morte. Se me suicidar, por exemplo.

- Não sejas ingénuo, estou lá sempre, sou eu que decido do sucesso ou fracasso. Não podes enganar-me.

- Quem são essas aí atrás?

- São as minhas irmãs: tragédia, doença e envelhecimento. Embora seja a face que todos conhecem, ando sempre com elas.

- Tenho mais medo das tuas irmãs.

- Vê se compreendes isto: as nossas decisões são colegiais, nunca levo ninguém sem o seu consentimento. Porque causo grande medo, elegeram-me como representante; sou no entanto parte desta parceria indestrutível e eterna.

- E porque me apareceste assim em sonhos? Porque falas comigo?

- Apareci, chamaste, estás a confrontar-te com a tua mortalidade? Não sou eu que tenho resposta a essas perguntas. Tu e só tu és capaz.

- Não entendo.

- Esforça-te, é só um sonho, uma visitação aos teus medos.

- Significa que não me vens buscar hoje?

- Hoje, amanhã, daqui a dez anos, quando for, será.

- Tenho uma filha pequena, gostava de a ver crescer.

- Não está nas tuas mãos. Contenta-te em aproveitar o que tens agora, seria estúpido da tua parte pensar que a paternidade faz alguma diferença. Imaginas quantos como tu já levei?

- O.K., aceito.

- Não temas, virei por ti quando menos esperares.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Olhos nos Olhos. (III)

por Fernando Lopes, 25 Jan 14

Até agora tinha sido fácil, tinha escrito sobre pessoas que conheço para lá do olhar. Não é este o caso, a henedina surgiu nas caixas de comentários há uns dois meses atrás. Coloca-me um desafio novo, adivinhar quem e o que está nesse olhar. Há ternura e melancolia nestes olhos, uma certa altivez e firmeza. De qualquer forma, posso estar enganado. Já aconteceu. Obrigado, henedina. Olhos nos Olhos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mulher ao telemóvel.

por Fernando Lopes, 24 Jan 14

Vejo-a à saída do parque de estacionamento. Sei que trabalhamos no mesmo edifício e cumprimento-a com ligeiro aceno. Vai com a cabeça tombada para a esquerda, a falar ao telemóvel. Assim atravessa a rua e entra no café. Cliente habitual, nem precisa de fazer o pedido; colocam-lhe o café e pão à frente. Nada disto a detém, continua a falar num murmúrio. Admiro-lhe a habilidade circense, pois fala e come, fala e bebe, imperturbável. Contas liquidadas, saio uns segundos depois. Sempre com a cabeça a adornar à esquerda, continua a falar enquanto remexe na carteira. Entra para o trabalho ainda em conversa. Intriga-me, não consigo entender que tanto terá para dizer, enquanto lhe admiro a perícia, pois parece que já nasceu com o aparelho integrado no minúsculo espaço entre o ombro e a orelha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Ryanhair.

por Fernando Lopes, 22 Jan 14

Descoberta do meu amigo Ricardo, algures no Luxemburgo. Para os incréus, a coisa existe mesmo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mau-gosto.

por Fernando Lopes, 22 Jan 14

Sempre que sobrevoo a minha cidade, prestes a aterrar, voz nasalada me anuncia que “dentro de momentos iremos aterrar no aeroporto Francisco Sá Carneiro”. Por mais que repitam o nome, causar-me-á sempre estranheza que tenham nomeado um aeroporto de uma personalidade que faleceu num desastre aéreo. É mais ao menos como um alemão publicitar os fornos Auschwitz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Pág. 1/3

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

subscrever feeds