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As galinhas que morriam de velhice.

por Fernando Lopes, 5 Nov 13

Fui criado numa casa tradicional, com um pequeno jardim e quintal. Ambos eram modestos, tendo o horto jarros, rosas de santa Teresinha, hortênsias, brincos de princesa e outras flores de que me não recordo. Não era um primor de estética, mas era nosso.

 

No quintal havia um limoeiro que insistia em produzir mais frutos do que os seus galhos suportavam, couves, hortelã e pouco mais. Ao fundo um galinheiro que nos seus tempos de glória chegou a albergar uma dezena de frangos.

 

A avó não matava galinhas, pelo que, quando envelheciam deixando de pôr ovos, as oferecia a uma vizinha para canja. Mas a D. Maria morreu. As galinhas estavam salvas. Durante mais de dez anos não se tocou numa. Ficaram ali, inúteis, até se transformarem em animais de estimação. Como nos humanos, a velhice cacarejante não é coisa bonita de se ver. Vão perdendo a agilidade, as penas, até se transformarem em espectros. Quando uma morria, tínhamos uma espécie de vala comum. Imaginem uma galinha catatónica, só com penas nas pontas das asas, quase incapaz de se mover, simplesmente à espera que o tempo a levasse. Foi assim até desaparecer a última.


Hoje, não sei porquê, lembrei-me disto.

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