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Não sei o que guardas dos teus amores de infância e adolescência. Tenho uma imagem terna, romântica, quase inocente, de todos eles. Haverá casos de violência física e psicológica, traumas, guerras familiares. Memórias assim, não as tenho, e por isso conservo essas recordações doces e infantilizadas. Vou contar uma estória, meio-verdade, meio-mentira, real e inventada, cinzenta e colorida, sobre amores antigos.

 

Após um casamento falhado e várias paixões avassaladoras, encontra-se num limbo. Deseja amar, mas a idade tornou-o mais cínico e exigente. Salta de caso em caso em caso com a leveza da borboleta, procurando não ferir nem ser magoado. Um dia – vantagens de viver numa grande cidade – reencontra um grande amor de juventude, que não via há mais de 25 anos. Ela nunca casou, ele encontra-se disponível, pelo que, trocam números de telemóvel, numa daquelas situações em que, secretamente, nunca se espera contactar ou ser contactado.

 

O improvável acontece e a chamada chega um dia. Combinam encontrar-se para um café. Conversam, revivem velhas memórias, acertam o passado, até que é surpreendido:

- Vamos para tua casa ou para a minha?

Não estava a pensar em reatar a velha relação, mas, caramba, estavam os dois livres.

Durante várias semanas são amantes ocasionais, sem hora ou compromisso, navegando ao sabor da disponibilidade e da libido. Cada encontro é um passo em frente no abismo dos afectos. A menina doce e terna havia-se transformado. Ao longo das noites e dias faz questão de lhe contar as suas aventuras sexuais – que ele preferia desconhecer – e não esquece pormenores íntimos, às vezes escabrosos. Nada lhe perguntou e interroga-se sobre esta necessidade confessional. Desiludido apercebe-se que a menina que vivia na sua imaginação já não existe, tornou-se numa mulher de coração frio e algo perversa.

 

Como começaram, acabam-se os encontros, sem uma palavra, um ai, uma despedida. Apercebe-se da decepção, como o tempo cristaliza imagens, como as pessoas se transformam. Caminha com as mãos nos bolsos, dá um pontapé numa pedra e avança para a próxima desilusão, seguro que cada vez irá doer menos.

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  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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