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Trovoadas de Verão.

por Fernando Lopes, 30 Ago 13

Quando era criança e jovem, existiam trovoadas de Verão. O ar ficava denso, pesado, apareciam nuvens escuras, trovejava e chovia desalmadamente durante algum tempo. A chuva fria na terra quente emitia pequenos focos de vapor, pairava no ar um cheiro indescritível a terra húmida, um perfume da natureza. Esse fenómeno desapareceu. Hoje, não sei bem porquê, senti-lhe a falta.  

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Residentes no Exterior.

por Fernando Lopes, 30 Ago 13

O país, assim, com letra pequena, pindérico e merdoso que é Portugal, já não tem emigrantes. Tornaram-se, por um passo de marketing, “residentes no exterior “. Não é piroso, dá até um toque sofisticado a quem trabalha nas fábricas do Luxemburgo, obras em França ou restaurantes londrinos.

 

Queremos o seu dinheiro, rejeitamos a sua condição. Esse mole imensa que fomentou a economia local construindo casas, enviando dinheiro para a família, criando pequenos negócios aquando do regresso, é vista de soslaio por quem deles se alimentou.

 

Uma nação que força os seus filhos a abandoná-la em busca de uma vida melhor e agora os trata de forma sobranceira, a armar ao sofisticado, não os merece. Melhor deixá-los gastar e guardar o dinheirinho onde o valor do seu trabalho foi reconhecido. Cá, para as elites, e em surdina, continuam a ser uns bimbos que dão muito jeito.

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Estupefacção.

por Fernando Lopes, 28 Ago 13

Mulheres que conduzem com desenvoltura, fazem curvas a abrir, queimam semáforos, esticam o dedo do meio ao condutor que fez uma manobra parva, são, apesar de tudo, absolutamente incapazes de encher um pneu ou atestar o depósito do limpa-vidros.

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Zombies.

por Fernando Lopes, 27 Ago 13

Muitas vezes, parece que carrego sobre mim todos os males do mundo. Cansado, arrasto-me: trabalho, casa, trabalho, sempre a viver o mesmo dia com ínfimas variantes. Não há filosofia, literatura, arte ou amor, que me tirem desta atonia. Olho para a mulher gorducha que caminha vergada, o vendedor da "Cais", também ele com a cerviz curvada, a mulher-a-dias com o peso da limpeza dos outros, o engravatado arrasta os pés, melancólico e impotente. Fazemos todos parte do mesmo exército de zombies.

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Passagem de testemunho.

por Fernando Lopes, 26 Ago 13

Nasci no dia 24 de Fevereiro do longínquo ano de 1963. Um domingo, dia de Porto-Benfica. Contava o pai que a mãe ao sentir dores de parto se deslocou sozinha para a Hospital do Terço, onde eu viria ao mundo. O pai, um jovem empregado de escritório de 27 anos, não tinha carro próprio. Resolveu apanhar um táxi, mas foi confrontado com uma enorme fila de adeptos que aguardavam transporte para o local do jogo. Pediu para o deixarem passar à frente, ia para o hospital onde estava a vir ao mundo o seu primeiro filho. As pessoas na fila pensaram tratar-se de um golpe e mandaram-no para o fim e esperar pela sua vez. Ao vê-lo tão aflito, alguém disse:

- Pode mesmo ser verdade, vamos deixar passar o homem?

Feitas as contas, analisadas as hipóteses, apiedaram-se do jovem que assim seguiu para a maternidade à espera do nascimento do seu primogénito.

 

É por isso que torço pelo Porto, que visto por dentro esta cidade, este clube. Não entendo grande coisa da bola, não sei o nome da maioria dos jogadores, só gosto que a minha equipa ganhe.

 

Ontem, quando estava a ver um jogo na net, pela primeira vez, a Matilde interessou-se genuinamente por futebol. Vibrou com os golos, questionou-me sobre as regras. Foi um momento simbólico, uma espécie de passagem de testemunho, em que o velho portista inicia nos mistérios de ser Porto a sua única herdeira.

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Tensão sexual.

por Fernando Lopes, 23 Ago 13

És um hipócrita, apóstolo do “politicamente correcto”, dizes o que achas que as mulheres querem ouvir. As tiradas do tipo “não distingo entre amigas e amigos”, “tenho mais amigas mulheres do que homens” e “a igualdade de género é mais forte na amizade”, soam a falso. Eu bem vejo como reparas nelas quando estão com calças justas, saias curtas ou decotes generosos, seu falso. Sabes bem que, independentemente da amizade, os estrogénios e a testosterona se sobrepõem a tudo. Numa relação amistosa entre homem e mulher, ténue ou encoberto, há sempre algum grau de tensão sexual.

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Bola Nívea.

por Fernando Lopes, 23 Ago 13

Imagem roubada à Nucha, a gaja da franja

 

Na despedida de uns amigos não resisti à piada “Encontramo-nos na Bola Nívea!”. A filha olhou para mim com ar de extraterrestre, e aí percebi mais uma vez o que é o gap geracional. Muitas das nossas praias tinham uma espécie de posto de vigia patrocinado pela célebre marca. Uma referência num mar de gente, toalhas e areia. Modo de fugir à vigilância dos pais e vaguear livremente, encontrar namoradas, marcar um jogo de futebol ou vólei, estar com amigos. A Bola Nívea deve estar quase extinta das nossas praias, há anos que não vejo uma. Marcaram uma geração, o início de um contacto mais livre entre rapazes e raparigas quando isso ainda era tabu. Quantas paixões terão começado com um encontro junto a esse ícone. Era um tempo em que só havia Olá de laranja , ananás e Epá, um gelado dava para três, o famoso “dá-me uma chupa”, se jogava ao prego e a vida era simples: tudo o que necessitávamos para ser felizes estava ali, a dois passos da Bola Nívea.  

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Pausa para amar.

por Fernando Lopes, 22 Ago 13

Por entre os semáforos do Porto, uma rapariga romani faz malabarismos com bolas à espera de uma moeda. No curto espaço entre o vermelho e o arranque em fúria dos automóveis, há uma pausa para fantasia circense. É pequenina, redondinha, longo cabelo preso numa trança, faces muito coradas, termina o número sempre com uma vénia. Hoje ao passar a pé e mais tarde do que é habitual, observei-a com um bebé ao colo, não muito longe de um dos locais onde exerce este estranho ofício. A seu lado uma matrona que suponho avó da criança. Enterneceu-me. Como seria bom se  todos tivéssemos  um momento a meio do dia para acarinhar os nossos filhos, dizer que os amamos.             

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Coisas que dão vontade de rir.

por Fernando Lopes, 21 Ago 13

 

"Uma Prova do Céu" é o livro mais vendido em Portugal na categoria "não-ficção". :))

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O regresso.

por Fernando Lopes, 20 Ago 13

É sempre um misto de angústia e prazer. Sentir-se útil, ter trabalho, tornou-se um bem escasso. E depois há o lado mau: sabes que conseguirias entregar-te ao torpor das férias por muito mais tempo, sabes que quando regressas vais ter dias de loucura para pôr tudo nos eixos, sabes que vais encontrar pessoas de quem gostas muito e outras que preferirias nunca mais ver, sabes que vais te de te levantar cedo, sabes que vais embirrar com o outro automobilista, sabes que o calor vai dar lugar ao frio, sabes, enfim, que tudo vai voltar à rotina que te embrutece a alma e alimenta o corpo.

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