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O Buda apaixonado.

por Fernando Lopes, 30 Jul 13

Na estante da D. Etelvina, carregada de bric-à-brac, o mundo tinha a sua ordem. À frente, virado para a porta, porque tinham dito que dava sorte, estava o Buda, seguido das matrioskas, ordeiras em ordem crescente, e a bailarina. Era um Buda chinês, gordo, com ar feliz e longas orelhas. Por baixo tinha uma nota de 10 euros, para que naquela casa nunca faltasse dinheiro.

 

De quando em vez Etelvina dava corda à caixa de música que fazia a bailarina rodar ao som de música celestial. Ele, de costas voltadas para toda aquela beleza, já se tinha apaixonado tais os elogios que as matrioskas teciam à bailarina:

 

- Que linda, com os cabelos loiros e vestido azul.

- E que bem que dança, rodando sempre sem se desequilibrar, tão graciosa.

 

Esperava pelo dia em que ouviria a música e imaginaria a linda bailarina, em pontas, com a leveza e graciosidade do flamingo. Com grande mágoa sua foi afastado do seu amor quando na sua fúria de mudança, Etelvina o colocou no pechiché, longe da sua querida estante, das bonecas russas e do seu amor. Chorou e sofreu durante anos com a distância entre o quarto e a sala. Às vezes, mesmo um pequeno espaço é um enorme abismo para os apaixonados.

 

Um dia a dona da casa morreu, e a neta resolveu mudar as pequenas peças daquele museu com vida. O Buda voltou à estante, com o seu amor à frente e as matrioskas alcoviteiras a rir baixinho do seu ar tolo e apaixonado.

 

- Como és bela, disse o Buda, apaixonei-me mesmo antes de te ver.

- O amor é assim querido Buda, primeiro enche-nos o coração e depois povoa-nos os olhos.

 

Ainda hoje, muitos anos depois, o Buda sente um tremor por dentro cada vez que vê, agora sim, vê, o seu amor dançar, sorrindo, muito direita e elegante, rodando sempre sobre o seu eixo.

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  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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