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Tenho trabalhado como um cão, o que nos dias de hoje não quer dizer a ponta de um corno: posso ser despedido amanhã. O esforço está altamente underrated, o que conta, mais que o empenho, é a aparência. Esse não é o meu jogo. Sinto-me profundamente deprimido, sem razão que o justifique. Apanhei uma constipação de cão, por causa de coisa nenhuma, e é ridículo andar a fungar e espirrar quando estão 30 e tal graus lá fora. Tinha de ir comprar uns calções para exibir às moças a perna peluda, mas não me apetece. Faltam quatro dias para ir de férias, mas nem essa perspectiva me anima. Envergonha-me um bocado ir exibir as banhas para o reino dos algarves, acho que vou fazer como o morcão do Goucha e só me deixo fotografar em t-shirt. É para isto que serve um blogue, escrevermos no nosso diminuto cantinho da net, o que nos vai na alma. Pode não trazer popularidade, leitores ou sorrisos, mas alivia comó caraças. Experimentem.

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A D. Maria afogava os gatos.

por Fernando Lopes, 26 Jun 13

Quase todas as casas de Álvares Cabral tinham um jardim e um quintal. Tínhamos um enorme limoeiro, que dava fruto até os galhos esgaçarem com o seu peso; couves para as galinhas ou sopa, hortelã, o galinheiro. A avó gostava dos ovos, “amarelinhos, não são como os do supermercado”, dizia.

 

Era raro matarmos uma galinha, e quem o fazia era sempre a D. Maria. Atarracada, descias as escadas para o seu quintal sempre de lado, com visível dificuldade. Vestia sempre uma bata muito suja, o cabelo muito curto aos caracóis, uma personagem um bocado ridícula.

 

Há 40 anos não havia “direitos dos animais”, pílulas para gatas ou cadelas, esterilização de machos ou fêmeas. De quando em vez, entre jarros, rosas de Santa Teresinha e hortênsias, uma gata vadia paria. Logo a D. Maria exercia o papel de controladora da população felina, afogando os gatinhos num balde. O horror sempre foi superior à curiosidade, nunca assisti à matança. Sinto-me tão amedrontado e impotente como quando em criança fugia para não ouvir os gritos dos gatinhos.

 

Preciso de correr para não sentir os clamores que vêm de todo o lado, numa tentativa de escapar à angústia que floresce nas ruas, entranha nas gentes e apodera de mim.

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  • Fernando Lopes

    Eh pá, nos contras diria que não é um cão. Nos pró...

  • Genny

    Tão gira!Mas confessa...já estás rendido à gata, n...

  • Fernando Lopes

    Croissant, meu caro, mas como o povo não sabia fra...

  • Carlos A. de Carvalho

    Que raio são coraças ? Como vou estar por aí a sem...

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