Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Roubar a memória.

por Fernando Lopes, 7 Abr 13

No prédio que emparceira com o “Franganito”, onde costumo almoçar, mora uma velha senhora. Professora reformada, deverá ter perto de 90 anos. Por trás das rugas, das costas corcovadas, há um brilho de vida nos olhos. Fala da escola, do defunto, dos filhos que vivem em Lisboa, e brilha. O Sr. Manuel, que abriu o restaurante em 1963 ainda lá almoça todos os dias. Os dois trocam dois dedos de conversa sobre os bons velhos tempos e ameninam-se. É encantador observar que, no espírito a idade, de facto, não existe.

 

Recebi dela o mais sábio dos conselhos: Vivam a vida! A Vida é muito bonita!

 

Por questões profissionais, frequento menos o local do que gostaria. Num dos regressos esporádicos, encontrei-a abatida, longe da vivacidade habitual. A razão era um simples: um qualquer bando de gandulos havia roubado os seus preciosos anéis e colar.

 

- Não é só o valor, tive muito medo e também me roubaram recordações.

 

Surpreso, balbuciei umas palavras de consolo. Saí angustiado. Como é que alguém, mesmo que em estado de necessidade, pode ter a coragem de roubar as memórias – o único bem que efectivamente resta – a uma nonagenária?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

subscrever feeds