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Um gato e um pof.

por Fernando Lopes, 30 Abr 13

Tenho as prioridades todas trocadas. Sou um merdas imbuído da moral luterana que Merkel & Associados querem impingir. Na bruma da manhã fiz um percurso diferente. Fui tomar o café que dá o segundo estalo de acordar ao Convívio. À porta dois sem abrigo a curtir os primeiros ventos do dia. Fixei-me num. Embora sujo, exibia um ar feliz. Sorria placidamente, acarinhando o gato que estava no seu colo. Fumava um charro perfumado. Confesso que tive inveja, não da sua situação, mas do relaxamento. Um gato e um pof, pouco mais é preciso para ver o mundo da sua verdadeira perspectiva; um lugar que não merece azáfama ou incómodo.

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IRS.

por Fernando Lopes, 29 Abr 13

O mundo dos impostos é um universo paralelo. Nesse local estranho, cumpro o meu papel, pagar. Invulgar para um “nabo fiscal” como eu, é que com rendimento e despesas idênticas vá receber mais 700 euros que no ano transacto. Será Vítor Gaspar a tenta seduzir-me para as suas políticas? Bem podes tentar, não estou disponível.

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Já não há almoços de domingo.

por Fernando Lopes, 28 Abr 13

Em solteiro, como viva com os avós, passava o fim-de-semana em casa dos pais. A estada incluía a muito esperada farra de sábado à noite e almoço de domingo. Quando me casei, já sem pai e avô do lado dos vivos, alternava entre a casa dos sogros e, uma vez por mês, a mãe juntava-nos. Eram almoços de ausência, pois por esta ordem, filho e pai tinham desaparecido em seis meses. Havia sempre ternura pelas três viúvas – a mãe e as avós – e uma sensação de ausência e angústia.

 

Após uma incompatibilização com o meu sogro, a tradição passou para casa da avó da minha mulher, matriarca de créditos firmados ao longo de 93 anos de vida. Com o agravamento do seu estado de saúde, abdicámos de sobrecarregar a empregada que já não tem uma vida nada fácil ao ter de tratar de uma nonagenária com saúde frágil.

 

Os celebrados almoços de domingo, com tripas, cozidos e bacalhaus vários, deixaram de existir. Três gatos pingados, almoçam tarde e sem entusiasmo. Como em tudo, o tempo corrói. É agora mais triste o meu domingo. Quem ainda se reúne em família e entre gerações, tire desses encontros o máximo proveito, pois como tudo, também esse momento de união irá enfraquecer, e tendencialmente morrer.

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O dia dos telemóveis.

por Fernando Lopes, 27 Abr 13

Só sabemos quanto estamos dependentes destes aparelhos quando se avariam ou os perdemos. Hoje foi dia dos ditos. O botão de Home do meu iPhone deu o berro. Sem aquele botão mágico a coisa funciona de um modo muito deficitário. Pesquisei em várias lojas e o mais barato que consegui para substituir a membrana do botão foram 60 aéreos. Puta que pariu! Preço da peça 5 cêntimos, preço da “mão-de-obra”, 59,95. Já estava a deitar fogo pelas ventas com tanto dinheiro tão mal gasto, mas parte da minha vida está naquela maquineta.

 

Ainda a coisa mal tinha começado. Após o jantar, a mãe, solícita, foi sacudir a toalha de mesa. Com elevada probabilidade levava lá dentro o telemóvel da minha mulher. Como mora num 9º andar a coisa deveria ter-se esfrangalhado na queda. Nem uma pequena peça se encontrava no chão. Procurámos em casa, no jardim, no chão, nos arbustos… e nada. A chefe da casa de lagrimeta no canto do olho e o pessoal de rabo para o ar. Certo é que a coisa desapareceu e quando se liga vai directo para o voice mail. Onde está? Desfez-se com o tombo? Mistério. Como é que vivemos uma eternidade sem telefone de bolso, e agora não podemos passar sem o estafermo do zingarelho? 

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A roupa que vestes pode matar.

por Fernando Lopes, 25 Abr 13

"Pelo menos 238 mortos em prédio que fabricava roupa para a Primark e Mango."

 

Adenda: Recentemente discutia-se por estas bandas os efeitos nefastos da desindustrialização para a Europa. Seria aceitável perdermos algum do bem-estar adquirido se tal significasse a melhoria da qualidade de vida da população da Ásia e continente sub-asiático. Na prática só vemos escravatura, miséria e morte. Em simultâneo, grandes empresas e seus capatazes a engordar. Sempre à custa do sangue da maioria.

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Estória do pré 25 de Abril.

por Fernando Lopes, 24 Abr 13

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pai, por afazeres profissionais, passava a vida entre o Porto e Londres. Como secretário da Câmara do Comércio Luso-Britânica acompanhava e intermediava missões comerciais entre a ilha e o continente. Era um apaixonado por livros e pintura. As suas horas vagas eram passadas no escritório entre livros, máquina de escrever e pincéis. Numa das suas viagens a Londres comprou um livro em inglês sobre a pintura russa no séc. XX.

 

Era um homem de esquerda, não alinhado, e adivinho que a aquisição se deveu mais ao interesse em arte que em política. No entanto, o simples facto de trazer um livro sobre pintores russos foi o suficiente para ficar detido no aeroporto e uma breve passagem pela PIDE.

 

Serve este episódio menor apenas para recordar o quão estúpido era o regime a que alguns ousam tecer póstumos elogios. Se algum palhaço me disser que era preciso outro Salazar, palavra de honra que lhe prego dois tabefes. 

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Foi o que respondeu Linda de Suza quando entrevistada sobre o seu livro “Mala de Cartão”. O crítico, mordaz, dizia que a senhora tinha toda a razão, uma vez que a autobiografia é um género literário e o que a portuguesa tinha escrito não se podia considerar tal. Estou com Sra. D. Linda, o que escrevo são apenas estórias que passam pela minha vida e que partilho com prazer.

 

Nem sempre é possível ser mordaz, crítico ou engraçado, por isso, em certos momentos, pouco mais nos resta que fazer prova de vida. Como alguém que vem à janela gritar para afirmar a sua existência, ou nos locais de veraneio, em que solícitos empregados de mesa, toalha no antebraço, nada fazem além de convidar os turistas a entrar e provar as maravilhas do menu.

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Estranho é…

por Fernando Lopes, 22 Abr 13

observar um chinês, calmamente, na paragem de autocarro, a tirar macacas do nariz e colá-las no poste que indica as linhas. Espreito os restantes utentes, que se dividem entre a risota e o vómito. O homem lança um sorriso cândido e esfrega com força o indicador para melhor colar uma catota mais resistente. Apercebe-se da surpresa e interroga mentalmente, do alto do seu bigodinho ralo:

- Mas o que é que foi?

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Temas:

Exemplo de ajustamento.

por Fernando Lopes, 22 Abr 13




















Tânia Marisa, 29, farmacêutica. Tinha como remuneração em 2012, 1.300 €. Aceita trabalho por 1.100 €, abaixo da tabela do sindicato. Patrão só contrata trabalhadores não sindicalizados. Involuntariamente ou não, exerce pressão sobre colegas, que baixam salários. Seis meses depois nova redução. Colega não aceita trabalhar abaixo da tabela do sindicato e negoceia rescisão por mútuo acordo. Colegas baixam mais 100 €, Tânia Marisa como recompensa baixa de 1.100 € para 900 €. Tânia Marisa não perde só 200 €, perde dignidade profissional. Passo seguinte: todos exercerão funções seja por que salário for. Um exemplo de sucesso do ajustamento.

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Coisas simples.

por Fernando Lopes, 21 Abr 13

Não entendo nada de geopolítica, mecanismos federais, uniões. Constato um simples facto: a UE está a desmoronar-se. O projecto europeu surgiu como forma de perpetuar a paz através da criação de interdependências económicas. O dinheiro a falar. Quando esse bem escasseia, vêm à tona os egoísmos nacionais. Conscientemente, por iniciativa do norte industrializado, a OMC abriu o comércio aos asiáticos e uma caixa de Pandora.

 

Tenho sempre presente este exemplo: quando me casei, uma máquina de lavar a roupa custou 80 contos. Era produzida em Setúbal sob licença italiana. Hoje, 20 anos depois, tenho uma sul-coreana que custou exactamente o mesmo preço, muito mais sofisticada.

 

Não tenho dúvidas que dentro de 10 ou 15 anos os asiáticos estarão a produzir os mesmos bens que hoje suportam a indústria alemã, a metade do preço. Basta ver os automóveis coreanos que por aí circulam. Não se sabia muito bem qual era a frente e a traseira, hoje são concorrenciais com os europeus por um preço muito mais baixo.

 

Temos de proteger a indústria e agricultura europeia ou agonizar. Renegociar os tratados comerciais. Comprar bens por preços mais altos porque os nossos operários e técnicos são mais bem remunerados. Ou isso ou tornar-nos-emos um gigantesco museu que os novos-ricos visitam na sua semana de férias. Não tenho a certeza que todos tenham entendido esta coisa tão simples. 

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