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O Crítico Literário

por Fernando Lopes, 22 Mar 13

Um conto de Raymundo Silveira


De um modo ou de outro, todos os vícios capitais dão algum prazer ao pecador, exceto a inveja. O soberbo goza a sua vaidade ou o seu orgulho, quer possua ou não as qualidades que se auto-atribui. O avaro não chega a usufruir a sua fortuna, porém o simples prazer de a possuir não deixa de ser um ideal concretizado. O luxurioso é, sem dúvida, aquele que imediatamente melhor se beneficia do seu pecado, porque, dos prazeres materiais, é o carnal aquele que mais gratifica o pecador. O irado, conquanto sofra mais tarde as consequências da sua ira, não deixa de extravasar uma violenta emoção que o estava a consumir e, portanto, pelo menos a curto prazo, sentirá um certo alívio. O preguiçoso sobrevive, de uma maneira ou de outra, sem o menor esforço físico ou mental. Todavia, o invejoso sofre para sempre os gravames e as sequelas do seu pecado e, paradoxalmente, o personagem alvo da sua inveja é, na verdade, o verdadeiro beneficiário. Afinal, se há motivos para despertar inveja, obviamente há qualidades a serem invejadas.


Alberto Camurupim sentia uma vontade louca de escrever. Passava horas, manhãs, dias inteiros debruçado sobre a sua Remington, último modelo, tentando redigir uma página que fosse. Mas nunca passou do título. Quando tentava esboçar as primeiras frases, estas não se materializavam, não tinham nexo algum, eram sentenças, no mínimo, ridículas, cheias de solecismos, cacófatos, lugares comuns. “Quando o sol raiou…” E não saía mais nada. Retirava a folha; amarrotava-a, punha outra. “Quando os primeiras réstias do sol d’aurora penetraram no meu quarto, pensei na mulher querida e vi do quanto sou capaz por amar ela…” Somente depois de muito ler e reler esta sentença, despertou para o cacófato e para o erro gramatical na colocação do pronome. Retirou o papel, amarfanhou-o com raiva e pensou em tentar mais uma vez.


Depois achou que tivera uma excelente idéia: “Como não pensei nisto antes? Por que não citar um trecho no original do ‘Romeu e Julieta’ na epígrafe?” Além de achar que estaria a salvo de erros, teria a chancela de ninguém menos do que o maior poeta de todos os tempos. Mas não sabia os versos de cor. Procurou na estante, abriu gavetas, desarrumou livros durante mais duas horas e nada de encontrar o trecho do vate de Stratford-on-Avon. Decidiu, então, citá-lo de memória. Os versos que ele escutara alguém declamar num sarau onde esteve de penetra eram estes: “But soft! What light throug wonder window breaks! It’s the east, and Juliet is the sun!” Mas o que saiu foi isto: “Bala soft! What leite wonder o índio disse! Isto é a Julieta my son!” Achou que estava muito bom. Afinal de contas, pouquíssimas pessoas em sua cidade liam mesmo qualquer coisa em inglês. Até que enfim conseguira produzir algo digno de um escritor e já imaginava o seu texto, com o nome dele acima do de William Shakespeare, impresso no maior jornal da sua terra. Mas precisava de algo mais original para o texto em si. Estivera lendo Machado de Assis e o impressionou particularmente esta frase: “Não imagina como eu aborreço as cópias. Fazer o que muita gente faz, que mérito há nisso?” Matutou durante umas duas horas e então uma idéia luminosa apareceu. “Por que nasci homem? Que circunstância aleatória teria feito de mim um ser humano e não uma barata? Talvez sendo um inseto minha vida tivesse mais sentido…” Excelente! Cogitou. Com um pouco mais de imaginação estarei construindo uma imagem originalíssima de que somente Kafka seria capaz.


 

 

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