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Carqueja.

por Fernando Lopes, 17 Fev 13

Persisto na saga de contar estórias importantes para mim, que não interessam a absolutamente ninguém. Teria 22 ou 23 anos e estava hesitante entre acabar a faculdade ou começar a trabalhar. A minha namorada à época teve de estagiar durantes seis meses nos Açores. 180 dias. Eu, sem amor, não existo. Sou cão sem dono, pombo que não sabe o caminho de casa, alma penada.

 

Decidi fazer o meu próprio estágio. Dormir de manhã, ler ou ir à faculdade à tarde, embebedar-me à noite. Frequentava a esplanada da Mena na Ribeira. Mãe e filha tinham acomodado em 4 ou 5 m2 uma arca frigorífica, máquina de café e lava-loiça. O suficiente para um negócio, uma vez que o restante era espaço público, cadeiras, mesas e guarda-sóis no meio da praça. Devo ter feito parte de imensas fotografias de postal turístico, uma vez que noite após noite, eu e um amigo de infância passávamos o tempo a emborcar cervejas. Eu para esquecer, ele não sei bem porquê.

 

Naqueles seis meses tornámo-nos parte do mobiliário urbano e estabelecemos relações de proximidade com os habitantes da Ribeira. Nestes micro-cosmos, há sempre um bêbado crónico, neste caso o Carqueja. Nunca o vi roçar os mínimos de sobriedade e tivemos conversas impercetíveis, mas certamente interessantes. In vino veritas.

 

Uma das noite o Carqueja estava no chão a desfiar um rosário de murmúrios que sei bem serem verdades filosóficas capazes de ombrear com Kant, Heidegger ou Ortega y Gasset. Como começou a tomar um tom arroxeado, suscitou a nossa preocupação. Não existiam telemóveis, pelo que pedimos para ligarem o 115 (naquele tempo o 115 ainda não tinha perdido os três). A ambulância recolheu um Carqueja quase a apagar-se.

- Este filho da puta já não volta, ouviu-se entre as vozes que rodeavam a maca.

No dia seguinte, chegados à Mena, lá estava ele, trocando o passo e segredando as suas pérolas de sabedoria. Aprendi nesse dia que o destino está traçado, a vida só desiste de nós quando desistimos de a viver.

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