Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O meu Vítor Gaspar privado.

por Fernando Lopes, 25 Jan 13

Este mês resolvi fazer uma análise aos novos escalões de IRS, sobretaxa e afins. Cheguei à brilhante conclusão que, enquanto família, vamos ser subtraídos anualmente em mais de 20.000 euros só em impostos sobre o rendimento, cerca de 40% do total de recebimentos brutos. Fica de lado o IVA, IMI, IUC e muitos outros cujas siglas desconheço. Assim, como cidadão com uma longa carreira contributiva, exijo:

 

  1. Que não se negue nenhum tipo de tratamento a nenhum idoso, excepto se ministrado contra a sua vontade;
  2. Que nenhuma criança com carências fique sem alimentação decente, na escola ou fora dela;
  3. Que os desempregados recebam um subsídio que lhes permita a sobrevivência com dignidade;
  4. Que Vítor Louçã Gaspar passe ocasionalmente cá por casa. Que me faça ternos cafunés. Que me diga que sou o melhor contribuinte do mundo. Que pegue em mim ao colo. Que confesse que a colecta de impostos foi tão boa para ele como para mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sem ponta de ficção.

por Fernando Lopes, 25 Jan 13

O segundo caso deu-se em Portugal, também numa estrada, dessas em que laboriosas curvas sobem e descem as encostas do monte. Embora a carreira tenha paragens certas, nenhum chofer deixará de parar a quem lhe acene.


O dia em que num descampado apareceu um homem a pedir passagem, e porque a camioneta já ia cheia, disse-lhe o chofer que a única solução seria viajar no tejadilho. Para compensar o incómodo só lhe cobrava meio bilhete.


O homem subiu, achou curioso ver um caixão de defunto, e acomodou-se entre as malas e os embrulhos, procurando a melhor maneira de se defender do frio. Quando mais tarde começou a chover, diz ele que hesitou um momento por lhe parecer de mau agouro, mas finalmente abriu a urna e deitou-se dentro. À cautela, não fosse a tampa fechar-se, tomou o cuidado de lhe pôr uma caixa de fósforos a servir de calço. Supõe que o tomou então uma modorra, porque só vagamente se recordava de ter sentido a carreira parar e de ouvir que alguém subia. Mas com a ronceirice do andamento e a monotonia da chuva, acabou por fechar os olhos.
O chofer tinha de facto parado para outro viajante, e por não haver ainda lugar informou-o também de que o remédio seria subir para o tejadilho.


Afinal - disse ele - não vai sozinho. Já lá está outro.


Reconstruindo depois o que aconteceu, sabe-se que o novo passageiro ao ver o caixão tirou com respeito o chapéu e se sentou perto, indiferente ao frio e à chuva de que nada o abrigava. Pelo menos foi assim que, cada vez vez que acordava da sua sonolência, o "morto" o viu através da frincha.


Finalmente, desejoso de mover o corpo dorido pela imobilidade a que o obrigava o esquife, e tendo a impressão que o tempo aclarara, estendeu o braço para fora e, brincalhão, perguntou numa voz soturna: - Ó camarada ainda chove?
Ao ver que o defunto mexia e o interrogava num tom de além túmulo, a reacção do homem foi fulgurante: atirou-se abaixo da carreira. Quebrou os ossos, mas escapou com vida. O outro também nada sofreu. Mas o chofer, assustado ao ver o passageiro cair, perdeu a direcção a atirou com a camioneta para um barranco. Quatro mortos.


Bem sei, não deve a gente rir-se da desgraça alheia, mas  que hei-de eu fazer?

 

 

 

J. Rentes de Carvalho, Mazagran, páginas 175-177

 

Reproduzido com permissão do autor, que com a habitual cortesia, me informou ser este episódio absolutamente verídico, passado algures na estrada velha entre Lamego e a Régua. Daí ter usado palavras suas, "sem ponta de ficção", para renomear esta estória.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • Fernando Lopes

    Eh pá, nos contras diria que não é um cão. Nos pró...

  • Genny

    Tão gira!Mas confessa...já estás rendido à gata, n...

  • Fernando Lopes

    Croissant, meu caro, mas como o povo não sabia fra...

  • Carlos A. de Carvalho

    Que raio são coraças ? Como vou estar por aí a sem...

subscrever feeds