Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O abraço.

por Fernando Lopes, 24 Jan 13

Em meados dos anos 90 fiz a minha primeira incursão por Cabo Verde, Ilha do Sal, ao tempo um destino pouco popular, com apenas dois hotéis na ilha. Escondi à minha mulher parte da pobreza que íamos encontrar. Ela deixou escapar um "Visto de cima parece o Day After!", enquanto sobrevoávamos as barracas dos arredores de Espargos. Um amigo tinha avisado da carência de material escolar, pelo que fomos municiados de lápis, cadernos e rebuçados para presentear alguns dos pequenos. Fraca contribuição, é certo, mas embrulhada com amor.

 

O hotel não passava de pequenos bungalows com comodidades mínimas e água corrente a horas certas. A 1 quilómetro de caminho ficava a vila. De manhã, após o pequeno almoço, íamos até ao cais ver os pescadores regressar da faina e o pescado que seria vendido nos restaurantes durante a noite. Era não mais que um passadiço, tábuas mal pregadas, ameaçando a todo o momento quem, como nós, se passeava. Ficávamos ali, a falar com as crianças e os pescadores, sentados precariamente, pernas balançando sobre o vazio.

 

Escusado será dizer que rapidamente ficamos conhecidos na vila, e as crianças ao segundo ou terceiro dia corriam para nós, perguntando:
- Teresa, tens caramelo?

 

Uns dos pequenos, timidamente perguntou-nos se tínhamos cadernos. Como carregava uma mochila, abri-a e ofereci-lhe um caderno e um lápis. O miúdo, visivelmente satisfeito, mas constrangido, quis trocar o caderno pelo seu brinquedo. Era apenas uma lata de spray, dois paus atravessando-a, uma roda em cada uma das pontas e um corda que puxava o imaginário carro. Agradeci, disse-lhe que não queria o carrinho, apenas brincar com ele. Os dois ultrapassamos dunas imaginárias, fizemos perseguições policiais e transformámos a lata com rodas em motivo de alegria geral. Depois de meia hora, já cansado, desisti. Recebi em troca um dos melhores abraços de sempre. O jovem agradecia à sua maneira, mais do que o caderno, a brincadeira.

 

Saí dali, lagrimeta no olho, para a esplanada do Mateus Solel, um barraco que servia croquetes de atum e tinha sempre alguém a tocar. Passados tantos anos, ainda hoje me comovo com a brincadeira tonta e o abraço de uma criança que me quis dar o quase nada que possuía.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

subscrever feeds