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um miúdo amedrontado.

por Fernando Lopes, 2 Jan 13

És um tipo estranho. Recordas-te de dormir até aos 7 ou 8 anos no quarto dos avós. De como te encolhias para provar que a cama, pouco mais que um berço, servia perfeitamente. Lembras o momento em que os teus argumentos foram vencidos e a avó encomendou uma cama de solteiro. Ainda hoje odeias o termo, as camas foram feitas não para solidão mas para partilhar com quem amamos. Nenhuma cama é fria se partilhada com amor. Os homens entraram casa dentro, dirigiram-se ao teu quarto e deixaram o leito da tua solidão, medo, insegurança. Era uma estrutura de metal, estreita como um coração apertado, de contraplacado, coberto por uma espécie de plástico a imitar madeira. Uma coisa sólida, que durou 20 anos em perfeitas condições, suportou o teu peso, acolheu a tua primeira vez. Lembras-te como pediste à avó para se deitar contigo, para deixar a luz acesa. Sempre foste inseguro, carente, bruto e frágil em simultâneo. Habituaste-te a dormir sozinho. Quando hoje a tua filha te pediu a mão e confessou que tinha medo do escuro, revisitaste-te naquele episódio. Também tu ainda hoje tens medo. Também tu preferes dormir acompanhado. Não cresceste muito, pouco mais és que um miúdo amedrontado, que à força de truques, aprendeu a disfarçar inseguranças.

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