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A história é simples e autoexplicativa. O meu avô paterno, embora nascido em Entre-os-Rios, fez toda a escola e vida profissional no Porto. Desde os seis anos que acompanhava o pai entre a aldeia de Rio de Moinhos e o Porto. Estudava durante o dia e ajudava o meu bisavô, mestre carpinteiro, no tempo livre.

 

Como regressavam de fim-de-semana à aldeia, apaixonou-se por uma gaiata que viria a ser minha avó. Ele com 20 anos e a avó com 19, casaram e instalaram-se definitivamente na invicta. Ligavam-nos ténues laços à aldeia, e visitávamos os parentes ocasionalmente.

 

Sendo o menino da cidade, era tratado como um pequeno lorde, coberto de mimos por gente de quem já nem o nome recordo. Uma das vezes, para celebrar tão ilustres visitantes, resolveram fazer um arroz de cabidela, especialidade da tia Isaura, irmã da avó. A tia levou-me a um terreno onde as galinhas eram livres, cacarejavam, punham ovos e esgravatavam buracos, rebolando-se depois neles, para "matar o piolho", como então se dizia.

 

Aponta um dos galináceos e diz: vamos comer aquela! Escusado será dizer que, com pena do bicho, fui incapaz de lhe ferrar o dente, perante a estranheza dos restantes convivas. Desde então nunca mais fui capaz de comer nenhum animal que tivesse visto vivo. Já me puseram perante um aquário para escolher lagosta. Obviamente, declinei. Nunca, mas nunca mais, fui capaz de deixar a gula intrometer-se entre mim e um animal vivo.

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Quinta de formigas.

por Fernando Lopes, 30 Jan 13

Todos os dias, no jardim que delimita o interior da rotunda da Boavista, vejo uma mulher correr. Terá cerca de 40 anos, usa um fato de treino discreto. Desconheço o objectivo da senhora, mas o esforço é bem visível no rosto. Um círculo infindável. Não deixo de fazer uma analogia com a minha vida. Corro para levar a miúda à escola, para chegar a tempo ao trabalho, para almoçar, para recolher a cria, para jantar.

 

Se a nossa vida fosse observada do céu, por certo pareceríamos uma enorme colónia de formigas, laboriosas, movendo-se rapidamente de um sítio para o outro, sem sentido aparente. Um bailado patético destinado a assegurar necessidades básicas como abrigo e comida.

 

Corremos, como se pudéssemos fugir ao fado. E, no entanto, ele está lá, atento, rindo dos movimentos que fazemos para assegurar pouco mais que a sobrevivência e perpetuação da espécie. Como numa quinta de formigas.

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Biko.

por Fernando Lopes, 29 Jan 13

Juiz: Porque é que se auto denominam negros? Vocês são mais castanhos do que negros.

 

Steve Biko: Porque é se auto denominam brancos? Vocês são mais cor de rosa do que brancos.

 


(a propósito das declarações patetas de Arménio Carlos e da polémica estéril que se seguiu)

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Noivas estrangeiras.

por Fernando Lopes, 28 Jan 13

Uma série de conhecidos têm mulheres ou noivas estrangeiras. Desde os clássicos países de leste, passando pela tropicalidade do Brasil, ao exotismo das Filipinas. Hesito se tal se deverá a uma espécie de globalização amorosa, à internet, ou à falta de mulheres interessantes em Portugal. Eu, que só tive de verdade duas mulheres na vida, tenho dificuldade em entender o que os leva a procurar o amor em tão distantes paragens. Percebo ainda menos como se pode ter a coragem – diria antes inconsciência – de meter na alcova, de quem não se conhece passado, ou cujas afinidades pouco mais são do que trocas de mails e chats. Depois, reflecti, e entendo-os bem. Nos dias de hoje, as mulheres portuguesas são na sua maioria, profissionais, independentes e livres, coisa que chega para assustar qualquer um. Assim, noiva estranha em País estranho, dar-lhes-á o conforto de outrora. Sai pouco, sociabiliza ainda menos. Reconfortado, chega do trabalho para um mar de ternuras e disponibilidade, mesmo que sejam de pechisbeque. Uma ilusão como qualquer outra, e se aqui ou ali, regada com um par de cornos, nada de muito diferente do que se estivessem casados com lusas moças, obrigados a limpar o rabo aos catraios, ajudar na janta, e ignomínia das ignomínias, ser obrigado a usar avental, enquanto com ciência aprendida, completam esse estranho puzzle que é encher a máquina de loiça com a mesma.

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Amar os animais.

por Fernando Lopes, 27 Jan 13

É ilustrado nesta bela fotogaleria. Longe dos patetas que humanizam os animais, este homem animalizou-se para lhes ensinar o que é a liberdade. Amor é isto, não petições idiotas.

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O meu Vítor Gaspar privado.

por Fernando Lopes, 25 Jan 13

Este mês resolvi fazer uma análise aos novos escalões de IRS, sobretaxa e afins. Cheguei à brilhante conclusão que, enquanto família, vamos ser subtraídos anualmente em mais de 20.000 euros só em impostos sobre o rendimento, cerca de 40% do total de recebimentos brutos. Fica de lado o IVA, IMI, IUC e muitos outros cujas siglas desconheço. Assim, como cidadão com uma longa carreira contributiva, exijo:

 

  1. Que não se negue nenhum tipo de tratamento a nenhum idoso, excepto se ministrado contra a sua vontade;
  2. Que nenhuma criança com carências fique sem alimentação decente, na escola ou fora dela;
  3. Que os desempregados recebam um subsídio que lhes permita a sobrevivência com dignidade;
  4. Que Vítor Louçã Gaspar passe ocasionalmente cá por casa. Que me faça ternos cafunés. Que me diga que sou o melhor contribuinte do mundo. Que pegue em mim ao colo. Que confesse que a colecta de impostos foi tão boa para ele como para mim.

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Sem ponta de ficção.

por Fernando Lopes, 25 Jan 13

O segundo caso deu-se em Portugal, também numa estrada, dessas em que laboriosas curvas sobem e descem as encostas do monte. Embora a carreira tenha paragens certas, nenhum chofer deixará de parar a quem lhe acene.


O dia em que num descampado apareceu um homem a pedir passagem, e porque a camioneta já ia cheia, disse-lhe o chofer que a única solução seria viajar no tejadilho. Para compensar o incómodo só lhe cobrava meio bilhete.


O homem subiu, achou curioso ver um caixão de defunto, e acomodou-se entre as malas e os embrulhos, procurando a melhor maneira de se defender do frio. Quando mais tarde começou a chover, diz ele que hesitou um momento por lhe parecer de mau agouro, mas finalmente abriu a urna e deitou-se dentro. À cautela, não fosse a tampa fechar-se, tomou o cuidado de lhe pôr uma caixa de fósforos a servir de calço. Supõe que o tomou então uma modorra, porque só vagamente se recordava de ter sentido a carreira parar e de ouvir que alguém subia. Mas com a ronceirice do andamento e a monotonia da chuva, acabou por fechar os olhos.
O chofer tinha de facto parado para outro viajante, e por não haver ainda lugar informou-o também de que o remédio seria subir para o tejadilho.


Afinal - disse ele - não vai sozinho. Já lá está outro.


Reconstruindo depois o que aconteceu, sabe-se que o novo passageiro ao ver o caixão tirou com respeito o chapéu e se sentou perto, indiferente ao frio e à chuva de que nada o abrigava. Pelo menos foi assim que, cada vez vez que acordava da sua sonolência, o "morto" o viu através da frincha.


Finalmente, desejoso de mover o corpo dorido pela imobilidade a que o obrigava o esquife, e tendo a impressão que o tempo aclarara, estendeu o braço para fora e, brincalhão, perguntou numa voz soturna: - Ó camarada ainda chove?
Ao ver que o defunto mexia e o interrogava num tom de além túmulo, a reacção do homem foi fulgurante: atirou-se abaixo da carreira. Quebrou os ossos, mas escapou com vida. O outro também nada sofreu. Mas o chofer, assustado ao ver o passageiro cair, perdeu a direcção a atirou com a camioneta para um barranco. Quatro mortos.


Bem sei, não deve a gente rir-se da desgraça alheia, mas  que hei-de eu fazer?

 

 

 

J. Rentes de Carvalho, Mazagran, páginas 175-177

 

Reproduzido com permissão do autor, que com a habitual cortesia, me informou ser este episódio absolutamente verídico, passado algures na estrada velha entre Lamego e a Régua. Daí ter usado palavras suas, "sem ponta de ficção", para renomear esta estória.

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O abraço.

por Fernando Lopes, 24 Jan 13

Em meados dos anos 90 fiz a minha primeira incursão por Cabo Verde, Ilha do Sal, ao tempo um destino pouco popular, com apenas dois hotéis na ilha. Escondi à minha mulher parte da pobreza que íamos encontrar. Ela deixou escapar um "Visto de cima parece o Day After!", enquanto sobrevoávamos as barracas dos arredores de Espargos. Um amigo tinha avisado da carência de material escolar, pelo que fomos municiados de lápis, cadernos e rebuçados para presentear alguns dos pequenos. Fraca contribuição, é certo, mas embrulhada com amor.

 

O hotel não passava de pequenos bungalows com comodidades mínimas e água corrente a horas certas. A 1 quilómetro de caminho ficava a vila. De manhã, após o pequeno almoço, íamos até ao cais ver os pescadores regressar da faina e o pescado que seria vendido nos restaurantes durante a noite. Era não mais que um passadiço, tábuas mal pregadas, ameaçando a todo o momento quem, como nós, se passeava. Ficávamos ali, a falar com as crianças e os pescadores, sentados precariamente, pernas balançando sobre o vazio.

 

Escusado será dizer que rapidamente ficamos conhecidos na vila, e as crianças ao segundo ou terceiro dia corriam para nós, perguntando:
- Teresa, tens caramelo?

 

Uns dos pequenos, timidamente perguntou-nos se tínhamos cadernos. Como carregava uma mochila, abri-a e ofereci-lhe um caderno e um lápis. O miúdo, visivelmente satisfeito, mas constrangido, quis trocar o caderno pelo seu brinquedo. Era apenas uma lata de spray, dois paus atravessando-a, uma roda em cada uma das pontas e um corda que puxava o imaginário carro. Agradeci, disse-lhe que não queria o carrinho, apenas brincar com ele. Os dois ultrapassamos dunas imaginárias, fizemos perseguições policiais e transformámos a lata com rodas em motivo de alegria geral. Depois de meia hora, já cansado, desisti. Recebi em troca um dos melhores abraços de sempre. O jovem agradecia à sua maneira, mais do que o caderno, a brincadeira.

 

Saí dali, lagrimeta no olho, para a esplanada do Mateus Solel, um barraco que servia croquetes de atum e tinha sempre alguém a tocar. Passados tantos anos, ainda hoje me comovo com a brincadeira tonta e o abraço de uma criança que me quis dar o quase nada que possuía.

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Ler.

por Fernando Lopes, 23 Jan 13

Não tenho paciência para este bando de troca tintas que nos governa. Em verdade vos digo que a oposição não é muito melhor, num país onde as elites políticas são uma não existência. Ver debates na TV é um eterno retorno, com argumentação ora esquecida de um dia para o outro, ora repetida ad nauseam. Vou-me ao livros. Depois de "Diário de Inverno" de Paul Auster, fragmentos da história de um homem, estou com J. Rentes de Carvalho e "Mazagran", admiráveis crónicas e epístolas. Aprendo com homens singulares e esqueço os estarolas que circulam nos corredores do poder.

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Haka.

por Fernando Lopes, 22 Jan 13

Num momento de incerteza, sem saber se amanhã nos estaremos a digladiar por uma côdea de pão, pulula um espécie que me irrita solenemente e que auto intitula "sobrevivente". Cada sobrevivente, sobrevive a alguém, supostamente desaparecido no combate diário que travamos connosco e com os outros. Recuso-me a seguir essa lógica guerreira, pouco mais de uma haka sem graça para atemorizar concorrentes. Ao sobreviver prefiro viver.  Em vez de atemorizar os adversários - e todos os temos - ignoro-os. Ficam a dançar sozinhos.

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  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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