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Psicanálise online.

por Fernando Lopes, 19 Dez 12

A minha primeira memória é traumatizante. Os pais insistem em me levar de fim de semana da casa da minha avó. Faço birra, agarro-me aos cortinados, recuso-me a abandonar o que considerava o meu lar. Deveria ter 4 ou 5 anos. A saúde do meu pai – e também a conveniência de não ter um puto a berrar e a borrar fraldas – levaram-me para casa da minha avó desde que me lembro. Conservei o meu coração nesse tempo, desde os amigos até à paixão pela zona de Cedofeita, onde ainda hoje percorro ocasionalmente, uma romaria da saudade.

 

Ter como memória a angústia de ser retirado ao seu mundo não é coisa agradável. Ser perseguido pelo estigma de filho enjeitado, muito menos. Acho que se deve a essa infância atípica muitos dos traumas que ainda hoje me perseguem. O processo de ser criado entre duas gerações sempre gerou alguma raiva, e por certo serão caso típico de psicanalista. Como não tenho nem dinheiro nem tempo para o fazer, conto estas estórias que partilho, como se estivesse num sofá ouvindo interjeições de atento ouvinte.

 

Perdoar-me-á quem me lê, mas nada mais me irrita do que a tentativa da mãe de reescrever a história familiar. Em cada visita há sempre na sua lembrança algo que não existe na minha. Não a perdoei mas habituei-me a conviver com esta realidade. Sei ela tem um sentimento de culpa, agora que se aproxima da velhice, e eu não consigo perdoar. Na alma ainda sou aquele miúdo que sempre ficou a remoer porque raio é que o tinham deixado.

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