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Pranto pelo poeta que ninguém leu.

por Fernando Lopes, 20 Out 12

Fenómeno a estudar por sociólogos neste tempo de informação imediata, é a suposta familiaridade que se cria com vultos das artes e das letras. À distância de um clique todos se acham íntimos do poeta. Morreu Manuel António Pina e as carpideiras de serviço logo desatam aos gritos, como se de um parente próximo ou vizinho se tratasse. Destes, apenas um núcleo restrito de intelectuais e camaradas privavam com ele, liam os seus poemas. Pina celebrizou-se como cronista e dos bons. Um verdadeiro homem do contra poder. Sobre ele pouco mais sabia do que rezam as suas crónicas e entrevistas. Homem de prosa, evito a poesia por a não compreender ou saber sentir. Fico pois chocado com lágrimas de pechisbeque, citações coladas com cuspo, perante o que dizem ser "a morte do Pina", como se de um íntimo se tratasse. Neste tempo de amizade instantânea, ninguém quer passar por ignorante, ninguém admite que não leu, não conhece. Faço-o com a normalidade de quem assume que não se pode saber ou ler tudo. De quem de Manuel António Pina apenas conhecia as crónicas. Tanta desonestidade intelectual, tanta falsa angústia, haviam de incomodar. Sobretudo o poeta.

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