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Alice (II)

por Fernando Lopes, 24 Jul 12

- Alice, preciso de beber alguma coisa que não café, pode ser? Relutantemente, foi ao frigorífico e trouxe uma garrafa de Gazela e dois copos. Sentamo-nos frente à televisão, a ver a novela. Pela primeira vez em muitos anos não bebi tudo de um trago. Fingi que estava a saborear, como se fosse um especialista, dando pequenos estalidos com a língua. Pareceu reconfortada. Adormeceu encostada ao meu ombro, lado a lado no velho sofá. Escapei-me para a cozinha e escorropichei duas cervejas e um pacote de vinho. Acordou e expliquei-lhe o acontecido." - Não tem mal. Queres dormir cá?". Pudicamente, mostrou-me o quarto das visitas.

 

Acordou-me manhã cedo, dizendo que queria levar-me ao doutor. "- Um bom médico, trabalha para a polícia, e como tu sabes há muitos guardas que gostam da pinga!". Decidido a levar esta minha tentativa de regeneração até ao fim, acedi. Mais para não a desiludir que por mim, as ilusões já morreram há muito. Na rua, a luz forte da manhã cegava-me. Alice caminha a meu lado, como velhos amigos ou amantes. Apercebe-se que estou agoniado, meio a tremer, com uma palidez vampírica. "- Precisas de ir beber uma cerveja?". Assenti com a cabeça. No velho consultório, esperei cá fora enquanto Alice entabulava negociações com a assistente. Saiu radiante, dizendo: "- Temos consulta para amanhã e não preciso pagar nada, é como se fosse para mim." Passeamos por Santa Catarina, a ver montras.

 

Comecei a tomar Tiapridal. Com o tempo os tremores foram passando, comecei a enjoar o álcool. Entrei numa estranha normalidade, que já não era a minha há muitos anos. Às vezes passeamo-nos de mãos dadas, como um velho casal de jarretas. Passo o tempo entre a pensão e a casa de Alice. Hoje quando cheguei tinha um bilhete. "Amo-te. Queres vir morar comigo?". Começámos a partilhar cama e mesa.

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Alice (I)

por Fernando Lopes, 24 Jul 12

Recebi um bilhete de amor. Porquê? Porque quero morrer e não há mulher que se preze que não tenha uma face salvífica. Porque é que quero morrer? Não sei bem, acho que foi a vida que me matou. Foi aos bocadinhos, como a monotonia mata o amor. É uma mulher baixinha, com um ombros estreitos e um rabo enorme, uns olhos grandes e brilhantes como uma boneca. Tem uma mãos pequeninas e sapudas, nunca poderia ser pianista ou manobrar com perícia os pincéis. São mãos de trabalho, duras, calejadas, provavelmente será escolhedeira numa fábrica de cortiça, mulher-a-dias, um desses trabalhos que parecem inexistentes, sem os quais não poderíamos sobreviver.

 

Apiedou-se de mim quando me viu a olhar para o fundo de um copo, já vazio. Estou tão magro, tão sugado, que me confundem com um toxicodependente. Por acaso sou bêbado. Não daqueles que não toma banho ou se urina pelas pernas abaixo. Ainda tenho a minha dignidade, tomo banho e mudo de roupa todos os dias. A D. Hortênsia, dona da pensão onde moro, fez de mim o filho que nunca teve. Dou-lhe o cheque da reforma e todos os dias recebo dez euros, para cigarros e o bagaço da manhã. Como pouco (uma sandes de fiambre dá-me para dois dias), e ela não se importa porque não gasta muito comigo. Tem sido assim na minha vida, por qualquer estranho fenómeno, quando estou a passar para a indigência, quando penso que, finalmente, me vou embebedar até à morte, algum destes anjos em forma de mulher, pequenina e gorducha, maternal e trabalhadeira me impede de cair definitivamente no abismo.

 

A mulher do bilhete, sei-o hoje, é cozinheira, viúva de um polícia. Chama-se Alice e não têm filhos. Diz que vê em mim algo mais que um alcoólico. Expliquei-lhe que não sou bom a foder, e ao fim destes anos todos de copos, o tesão é coisa que só acontece de vez em quando. Parece que não se importa, que não existem almas perdidas e do que eu preciso é de apoio psicológico e estabilidade. Convidou-me para sua casa, mas tudo o que me deu foi café e umas roupas velhas do marido. O filho da puta devia ser gordo, fica-me tudo enorme, de modo que pareço uma reles caricatura do David Byrne nos anos 80.

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    Uma bela albina, poderia ser gémea da gata da minh...

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    Tu és de pouco alimento, a despesa suporta-se bem....

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    Com a poupança que tens tido nos almoços comigo e ...

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