Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Que os deuses te acompanhem

por Fernando Lopes, 26 Abr 12

Pensar na necessidade de emigrar como abstracção despe o facto de emotividade. Abalar para o estrangeiro aos 25 ou 30, estudos superiores, é um momento difícil, mas que, em muitos casos, o destino se encarregará de premiar. Chegou-me uma notícia de cariz muito diferente. De uma vida que desfila em constantes altos e baixos com um epílogo ainda por escrever.

 

A Maria (nome fictício) nasceu na América do Sul, no meio da abastança. Regressou ainda jovem a Portugal, sem nunca perder um leve sotaque espanhol. Apesar de nunca ter dependido dos pais, tinha na sua fortuna um porto de abrigo para dias de tempestade. Hotéis, bombas de gasolina, supermercados, a família era possuidora de bens materiais que lhe proporcionavam um conforto muito acima da média. Apaixonou-se por um rapaz pobre e, contra o desejo familiar, decidiu tomar nas suas mãos o destino. Marginalizou-se por amor. A riqueza paterna esvaiu-se em meia dúzia de anos. Ficou precocemente viúva. Mas como é uma resistente, fez-se à vida.

 

Foi mulher-a-dias, tomou conta de idosos, trabalhou no comércio. Agora, aos 48 anos e desempregada, com um filho adolescente, prepara-se para emigrar. Tem como habilitações o 12º ano, pelo que não poderá aspirar a um emprego qualificado. As hipóteses de ser bem sucedida são remotas e ela sabe-o. Mas neste país onde não há futuro, é a única que lhe resta. A fuga para a frente, uma versão moderna do desespero que levou os portugueses a abalar nos anos 60. Que os deuses te acompanhem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

subscrever feeds