Sábado, 31.03.12

Saraiva

O pai foi secretário da Câmara do Comércio Luso-Britânica durante muitos anos. Foi atraiçoado pelo coração aos 54, mas conheço poucos portugueses que, como ele, andassem em Londres como em casa. As linhas do metro e do autocarro sabia-as de cor, tratava por tu os grandes museus e galerias londrinas, gostava do encanto decante do Soho.

 

Adorava contar histórias e piadas, entre elas esta, quase mítica que aqui vos deixo. Incapaz de jurar a sua exactidão, fica escrita ao sabor da minha memória.

 

Todos os anos se organizava na feitoria do Porto uma baile de gala, para a comunidade britânica e notáveis portugueses particularmente relacionados como os negócios e cultura da terras de sua Majestade. Para abrilhantar a festa, decidiram os organizadores contratar um mestre-de-cerimónias inglês, que, à porta do salão, recebendo os convites, anunciava na entrada de quem chegava à festividade.

 

Acontece que o "bife" não falava português e debatia-se com naturais dificuldades em pronunciar os nomes dos convivas nacionais. Pedia um pequeno apoio que gentilmente lhe era dado e anunciava os nativos. Deu-se o caso de não conseguir ler o nome de um dos convidados. O português gentilmente explicou-lhe que se chamava Saraiva. É anunciada ao salão, com pompa e circunstância, a chegada de Sir Aiva and  Lady Aiva.

Fernando Lopes às 00:15 | link do post | comentar
Sexta-feira, 30.03.12

Vogais de A a Z

Imagem: Kaos

 

Naquilo que se poderá designar como transumância do bloco central, António Borges regressa hoje ao grupo Pingo Doce. Após um período de nojo, caracterizado por ter a exacta duração que o seu partido está ausente do poder, a dança das cadeira (re)começa. Se analisarmos os curricula de dois notáveis da actual maioria, veremos que saltitam de Conselho em Conselho. É o Conselho de Administração, Conselho de Estratégia, Conselho para a Internacionalização, Conselho dos Conselhos e uma infinitude de cargos. Quem possui o dom da ubiquidade, não é Deus, mas por exemplo, Nogueira Leite ou António Lobo Xavier. São vogais de A a Z, que as cinco vogais são pequenas para registar os inúmeros cargos que ocupam.

Fernando Lopes às 08:20 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 29.03.12

mulher nua à janela

Mulher nua à janela

Às vezes sou perseguido por imagens impressas algures na minha memória. A de hoje foi semelhante a esta.
Fernando Lopes às 22:37 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Quarta-feira, 28.03.12

Grandes frases, grandes postas...

A propósito do fecho da livraria Poesia Incompleta.

 

Se calhar vamos ser todos muito felizes a coçar o cu aos iPads.

 

Eduardo Pitta, Da Literatura

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Fernando Lopes às 19:20 | link do post | comentar

Depois dos candeeiros, fogareiro a petróleo, o regresso!!!

Fogareiro a petróleo

Que as coisas não estão fáceis, já todos sabemos. Mas haverá algo mais simbólico do retrocesso civilizacional a que este país está sujeito do que o regresso dos candeeiros a petróleo? À boa maneira dos anos 60, com um interior onde a luz eléctrica era uma miragem, o empobrecimento que nos envergonha é também marcado por estes recuos. Dentro do conceito de "austeridade digna", proponho o regresso de mais um ícone dos anos 60, o fogareiro. Estes acessórios darão um look vintage às residências portugueses. O diabo vai ser se os bandidos dos donos das drogarias se cartelizam para aumentar o preço do combustível. Aí virá o Sebastião da concorrência, com um ar enfiado dizer que "os preços sobem exactamente como sobem os preços internacionais de referência".

Fernando Lopes às 00:55 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 27.03.12

A morte nas costas

Nas minhas costas tenho sempre um lembrete da efemeridade. Rodando 180º, no meu local de trabalho, tenho vista para o cemitério de Agramonte. Belos jazigos em forma de capela, que mostram as glórias do reino dos mortos, aos vivos. Para que conste, ao contrário do que dizem, nem na morte somos todos iguais. Uns morrem e ficam à superfície, exibem arte, orgulho nas origens e terrenas fortunas. Outros, pobres, são escondidos debaixo da terra, em campa rasa. Não me lembro de ter confessado isto, excepto a meia dúzia de amigos mais chegados, mas aqui vai. Tenho um medo que me pelo de caixões ou ser enterrado. A experiência mais próxima que tive de estar num caixão, uma ressonância magnética. Enfiado naquele tubo, entrei em pânico. Só fiz o exame com recurso a anestesia. Uma coisa uma bocado mariquinhas, bem sei. Deixo aqui as minhas últimas vontades no que ao féretro concerne. Um caixão XXXL e um repouso não debaixo mas à tona da terra. O primeiro deverá ser facilmente exequível, para alegria de carpinteiros e cangalheiros. Do segundo 50.000 € me separam. Acho que vou aguardar. Sem pressas, que demora muito tempo a juntar tanta massa.

Fernando Lopes às 07:33 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Segunda-feira, 26.03.12

Os portugueses não merecem os juízes que têm

Os portugueses não merecem os juízes que têm.

 

 

Estou plenamente de acordo. Seguindo o "plano Coelho", sugiro a emigração aos juízes portugueses. Saiam da vossa "zona de conforto". Não me parece que "a casta" faça grande falta à justiça. A independência do poder judicial um mito, os juízes um bando de energúmenos politiqueiros e inoperantes. Façam-nos um favor, emigrem.

 

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Fernando Lopes às 09:12 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Ai que sacrifício!

O despertador toca. A minha mulher senta-se na cama, coloca a cabeça entre as mãos e exclama:

 

- Ai que sacrifício!

 

Está dado o mote para o dia a dia de milhares de portugueses. Salários congelados, pressão dos chefes e patrões, cada vez menor motivação para exercer tarefas antes executadas com prazer e sentido do dever.

Fernando Lopes às 08:53 | link do post | comentar
Domingo, 25.03.12

Prazeres solitários

Escrevo antes de tudo para mim. Porque este acto solitário me dá prazer. Não me parece que, qual Messias, tenha alguma boa nova a comunicar ao mundo. Faço-o após 9 horas diárias de trabalho, normalmente depois do jantar, baseado em pequenas notas que vou deixando no telemóvel. Não tenho tempo nem saber para apurar os textos, não uso os magníficos dicionários de sinónimos incluídos no Word, corrector ortográfico nem vê-lo. O facto de ter um blogue prende-se com a necessidade de me exprimir. Para sofrimento dos incautos que me lêem, este é o meu meio. As tintas e pincéis feririam menos sensibilidades, mas faltam-me os conhecimentos para me expressar em tela. Ao fim de semana, quando tenho tempo para incomodar com mais frequência a minha meia dúzia de leitores e ler com calma o que os outros escrevem deparo-me com um deserto na blogosfera. Ou existem magníficos empregos, em que não se tem a ponta de um corno para fazer e que possibilitam devaneios critico-literários, ou muitos bloggers menosprezam os dias descanso semanal porque têm menos leitores. Existe em muitos a febre do "publicozinho", como se alguma da treta que escrevemos tivesse importância. Reality check! Não tem. Lemo-nos uns aos outros, numa espécie de círculo fechado sem impacto ou notoriedade. Experimentem ir ao Bolhão e inquirir quais os blogues favoritos. O mais provável é levarem com um "Vai chamar blogue a outro, seu ordinarão!". Agradeço a quem aqui vem e participa, mas padeço do mal de conhecer as pessoas e de ter a noção da minha [e da nossa] insignificância. Seria bom que alguns pavões que não resistem a exibir lustrosa plumagem tivessem a noção de que tal não resulta na cópula ou  no reconhecimento esperado, pois lá no fim do mundo nada existe excepto o divertimento ou reflexão que tiramos das nossas palavras.

Fernando Lopes às 19:45 | link do post | comentar | ver comentários (2)

o amor valerá sempre a pena

Ocasionalmente sou atravessado por grandes angústias. Será comum a todos, dos mais tímidos e introspectivos aos mais expansivos. Lembro bem os primeiros momentos de medo profundo e angústia, daquela que nos causa borboletas no estômago. Quando com 12 ou 13 anos tomei consciência da minha finitude. A tomada de conhecimento de que vamos morrer, de algum modo, altera-nos. Coloca as nossas hormonas adolescentes no devido lugar, o de uma micro poeira cósmica, colocada por acaso no universo, com outro destino que não o de cumprir um papel ainda não escrito, por dramaturgo também ele inexistente. E, no entanto, lutamos. Por uma vida melhor, por mais conforto, por felicidade para os filhos. Mesmo que não se consiga nada, mesmo que o nosso significado seja ridiculamente pequeno, é esta luta, esta vontade de mudar intrínseca ao ser humano que faz o mundo avançar, dar melhor condições de vida aos que cá estão e aos que hão-de vir. Lutar por uma causa, por um ideal, é uma forma de superação da morte, pelo amor. Enquanto um único homem sentir este amor fraternal, valerá sempre a pena a vida e a luta.

Fernando Lopes às 00:01 | link do post | comentar
Sábado, 24.03.12

Incidente diplomático

Hino do Cazaquistão trocado por música do filme "Borat". E depois? Não foi ele colocou o Cazaquistão nas bocas do mundo? E quem inventou o mankini?

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Fernando Lopes às 17:30 | link do post | comentar | ver comentários (2)

ambos os dois

Adoro as conferências de imprensa de Jorge Jesus. É o único que consegue proferir "ambos os dois, como se diz, tiveram um contacto". De notar que a dúvida insinuada é relativa à palavra contacto. Angústias do acordo ortográfico. Até a traineira espinhense que atracou sem saber como para os lados do Dragão consegue ser mais eloquente.

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Fernando Lopes às 01:19 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Sexta-feira, 23.03.12

do meu baú (II)

 

Escucha bien, mi viejo amigo
no se si recordarás
aquellos tiempos ahora perdidos,
por las calles de esta ciudad.

 

Leímos juntos libros prohibidos,
creímos que nada nos haría cambiar,
vivimos siempre esperando una señal.

 

En el límite del bien,
en el límite del mal.
Te esperaré en el límite del bien y del mal.

 

 

 

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Fernando Lopes às 18:46 | link do post | comentar

pequena faísca basta

Na análise que se poderá fazer à Greve Geral, ou Greve Nacional, como puerilmente referiam ontem ao fim da tarde os jornalistas da SICN, a adesão mais forte, registou-se, como esperado no sector público e em particular nos transportes, saúde e ensino. Não me interessam tanto os números, mas antes questões que embora aparentemente laterais, são plenas de significado. A violência da polícia, em Lisboa e no Porto demonstra bem que o governo já "perdeu a mão" nos portugueses. É sinal de desespero, descontrolo, de quem tenta impor pela força o que não consegue pelo discurso político. Em breve teremos uma grande manifestação aberta, libertária e pacífica, com os cães de guarda com protagonismo limitado. Mas, temei, pois pequena faísca basta para provocar grande ignição.

 

P.S. para os menos perspicazes: a última frase que titula esta posta é de leitura ambígua, pois a ignição pode dar-se de qualquer dos lados da barricada. E sim, no estado a que as coisas chegaram é já de barricadas que estamos a falar, foda-se!

Fernando Lopes às 08:02 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quinta-feira, 22.03.12

O inimigo convencional

Está a tornar-se uma tradição, cada vez que algo corre mal ao governo passista, surgirem em catadupa notícias sobre Sócrates. Eu, que não defendo o homem e não sou eleitor do PS, já começo a ficar nauseado com a falta de imaginação dos assessores de comunicação do governo. A estratégia de criar fait-divers para ocultar o essencial é de uma desonestidade intelectual a toda a prova. Sócrates está politicamente em período de nojo e foi duramente castigado pelos portugueses. Não faz pois sentido que a equipa do homem que disse "não nos desculparemos com o passado" passe a vida a recorrer a este expediente merdoso. Seja através de um advogado que volta a questionar a "estória" da licenciatura ou pelos serventuários da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, Sócrates e o seu governo lá vem à baila. A estupidez da estratégia de comunicação é bem patente e recorda-me um episódio que ouvi sobre as aulas de estratégia no exército.

 

- Os russos atacam e as forças da NATO ocupam estas posições estratégicas no terreno.

- Perdão meu capitão, mas porquê os russos, se já não existe bloco de leste?

- Porque os russos são o inimigo convencional!

Fernando Lopes às 08:33 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quarta-feira, 21.03.12

títulos da imprensa económica que me deixam perplexo

 

Na edição em papel de hoje do Diário Económico. Para saber o que eram os cocós tive de ir ao dicionário de economês do Financial Times.

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Fernando Lopes às 18:33 | link do post | comentar

Não temos multibanco

multibanco

Quando frequentarem cafés e restaurantes reparem se existe serviço de Multibanco. No restaurante habitual acabou-se, para não aumentar os preços e manter clientes. Confeitaria, idem. O aumento de impostos faz crescer a economia paralela. Os comerciantes optam por este expediente. Não pagam comissões aos bancos e subfacturam. Não é honesto? Pois não, mas trata-se da sobrevivência de pequenos negócios. Expliquem isto ao Ministro das Finanças. É por estas e outras que a receita caiu e vai continuar a cair. Parece que não ensinam muito sobre o mundo real nas universidades.

Fernando Lopes às 00:19 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Terça-feira, 20.03.12

Reflexões ao despertar

7:30. O despertador toca. Arrasto-me para fora do quarto. Entro no escritório e acendo um cigarro enquanto olho para a janela. Por detrás das cortinas apercebem-se as movimentações nos prédios vizinhos. Famílias como a minha, a despertar, preparando as crianças, tomando o pequeno almoço. Descem para a garagem um pai e dois miúdos. São pequenos, talvez entre 5 e 10 anos. O telemóvel marca 7:40. A violência que hoje é exercida sobre os pequenos está bem patente na forma como se arrastam. Tal como a minha filha e milhares de outras crianças permanecerão 10 a 12 horas fora de casa, entre escola, ATL, trabalhos e actividades extra-curriculares. A sociedade transformou-se, não para melhor. Hoje os miúdos socializam pouco fora do circuito escolar. Não há as brincadeiras na rua com os vizinhos, não há tardes ou manhãs livres depois da escola, o aconchego parental de quem ficou em casa e prepara um lanche, desapareceu. A sociedade mudou, os pais abalam de manhã e chegam à noite e com eles arrastam as crianças. O progresso económico e social que representa o facto dos dois pais trabalharem mostra aqui o reverso da medalha. Os nossos filhos têm pequeníssimos espaços de fruição e brincadeira. Andam no ballet, karaté, inglês, teatro, música. Porque não temos para lhes dedicar, para exercer a parentalidade. Vivemos em guetos, por escalões etários. Os velhos nos lares, activos no trabalho, infantes na escola. Só ocasionalmente estes mundos se cruzam, e isso empobrece-nos a todos.

Fernando Lopes às 08:30 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Segunda-feira, 19.03.12

Os maridos das outras

 

Ninguém me convence que este tipo não ouviu as discussões cá de casa. Senhoras, oiçam com atenção e penitenciem-se na caixa de comentários.

Fernando Lopes às 08:19 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Domingo, 18.03.12

Entregues à canzoada!

Depois da filha do pastor alemão, o próprio foi eleito presidente da Alemanha. Com padrões morais mutáveis ao sabor da conveniências e uma lógica luterana de crime e castigo, portugueses temei! Estamos entregues à canzoada!

Fernando Lopes às 21:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)
 

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