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formigas

por Fernando Lopes, 26 Jan 12

Desempregado, mal amado, sem filhos por quem lutar, apoderou-se dele uma melancolia sem fim. Não aquela dos poetas, inspiradora e catártica, antes uma modorra que lhe destruía a vontade. A sua vida fora um fiasco. Um casamento falhado, profissional substituído por jovens com novos métodos e novos saberes. No sofá de orelhas, desgastado pelo tempo, sentiu-se medíocre, pequeno, prescindível. Olhou para a garrafa de whisky e para os comprimidos e sorriu. Bebeu até chegar a um estado de torpor. Encheu a boca de comprimidos e bebeu um longo golo. D. Emília, a mulher a dias, encontrou-o dias depois, na limpeza semanal. A garrafa vazia e tombada, o corpo rígido, a TV ainda ligada. O jornalista falava sobre um engarrafamento que adiava a chegada de milhares de formigas operárias ao local de trabalho.

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