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Encher bem a barriga no Parlamento

por Fernando Lopes, 31 Jan 12

"Há dois restaurantes de luxo na Assembleia da República reservados a deputados e respectivos convidados. Por cerca de 10 euros por pessoa podem experimentar no almoço buffet, do restaurante do edifício novo do Parlamento, um belo arroz de tamboril com gambas e umas salsichas em couve lombarda. Mas tem também direito a uma mesa de fritos, a outra vegetariana, mais uma de doces e frutas ou de queijos. Tudo isto antecedido, se assim o entender, de uma bela sopa de cebola. Este é um menu normal, não é de dia de festa, mas sabendo que nem todos os deputados almoçam como deve ser, fomos ver os preços nos bares a que têm acesso e também na cantina, onde vão sobretudo os funcionários da casa.


Começando pela cantina, por apenas 3,80 € têm acesso a uma refeição completa, incluindo iguarias como um arroz de polvo - "malandrinho", como convém -ou à dieta de vitela simples, mais sonhos de peixe. Sopa de ervilha ou Juliana de legumes também constam da variada ementa.


Já nos bares de serviço, para uma refeição ligeira, o Correio indiscreto aconselha o belo prego, a bifana ou o hambúrguer da casa a apenas 1,01 €. Os croquetes também são em conta: 0,40 cêntimos cada um. Pode optar, é claro, por uma sandes mista a 0,66, ou em forma de tosta a 0,76. Tudo isto pode ser regado com uma cerveja a 0,55 ou uma mini a 0,40. Já percebeu porque é que eles engordam?"

Paulo Pinto Mascarenhas no Correio da Manhã

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Prato do Dia

por Fernando Lopes, 30 Jan 12

Almoço num daqueles restaurantes simples, em que o prato do dia e a bebida custam 5,50 €. Uma comida com demasiado arroz e batata, muito na base do "enfarta-brutos". A vantagem do local são umas sopas decentes e boa carne. Desde a subida do IVA na restauração os clientes têm diminuído a olhos vistos. O aumento foi de 50 cêntimos, o que pode significar que muita gente anda, literalmente, a contar os cêntimos.

Sempre com o radar ligado, notei o aumento de movimento nas lojas de sanduíches, especialmente uma que tem uma promoção de 2,10 €. Embora a marmitagem seja muito in, existem locais onde tal não é possível. Uma copa com 4 m2, em cima dos colegas, não possibilita que se leve comida para aquecer. Seríamos inundados de odores vários, até à náusea. Se todos trouxerem sanduiches, será necessário fazer uma escala de serviço, com o almoço a começar às 12:00 e a acabar lá para 15:30. Isto se muitos não desfalecerem durante a espera.

Não havendo áreas de lazer ou jardins por perto será necessário andar umas centenas de metros até à zona verde mais próxima. Se não chover o problemas está resolvido. E se chover? As soluções bonitas, na moda, e feitas à medida da crise, nem sempre funcionam porque também muitas empresas não têm áreas que permitam que os empregados almocem com o mínimo de normalidade.

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Mi Casa Es Tu Casa

por Fernando Lopes, 29 Jan 12


Um evento com algo de subversivo, intimista e comunitário. A fórmula é genialmente simples. Músicos fazem da sua casa um espaço performativo, e você qual proprietário de um Coliseu por um dia, assiste na sala de estar, fruindo e permitindo a entrada de amigos, vizinhos, desconhecidos. Uma imagem da cidade de portas e coração aberto que é Guimarães. Com aquele jeito melancólico e gaiato, de peito feito para a vida. Um acontecimento só possível porque é a imagem das suas gentes. Onde os homens são meninos, rufando tambores no Pinheiro, as mulheres donzelas à varanda nas maçãzinhas. Um misto de tradição e modernidade, uma feliz conjugação de passado e futuro, só possível graças ao Ricardo e Dalila, que abriram a porta a todos. Mais de 80 em 45m2. Porque são o espelho da cidade, com uma generosidade tão grande que cabe sempre mais um.

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Moedas e o pensamento mágico

por Fernando Lopes, 27 Jan 12

Carlos Moedas, deputado eleito por Beja e secretário de estado adjunto do primeiro-ministro, brinda-nos, via Wall Street Journal, com mais um momento de pensamento mágico. Num tempo em que Vítor Gaspar procura desesperadamente a receita ao fundo do túnel,  Moedas refere "a possibilidade de reduções de impostos". Sei bem que escreve para "americano ler", mas conhecendo a capacidade de pitonisa do secretário de Estado, não posso deixar de ficar seriamente preocupado. Afinal, este  é o homem que afirmou "Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o rating..."

[Actualização] Como sempre, tudo e o seu contrário...

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formigas

por Fernando Lopes, 26 Jan 12

Desempregado, mal amado, sem filhos por quem lutar, apoderou-se dele uma melancolia sem fim. Não aquela dos poetas, inspiradora e catártica, antes uma modorra que lhe destruía a vontade. A sua vida fora um fiasco. Um casamento falhado, profissional substituído por jovens com novos métodos e novos saberes. No sofá de orelhas, desgastado pelo tempo, sentiu-se medíocre, pequeno, prescindível. Olhou para a garrafa de whisky e para os comprimidos e sorriu. Bebeu até chegar a um estado de torpor. Encheu a boca de comprimidos e bebeu um longo golo. D. Emília, a mulher a dias, encontrou-o dias depois, na limpeza semanal. A garrafa vazia e tombada, o corpo rígido, a TV ainda ligada. O jornalista falava sobre um engarrafamento que adiava a chegada de milhares de formigas operárias ao local de trabalho.

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agitprop patética

por Fernando Lopes, 25 Jan 12

Assisti ontem, pela televisão, ao destroço em que a esquerda portuguesa se tornou. Com estes a direita vais continuar a ganhar eleições por muitos e maus anos. Duzentos ou trezentos marmelos juntaram-se frente ao Palácio de Belém para "ajudar" Cavaco. Juntaram moedas, arroz e leite, fizeram a sua manobra de agitprop e foram nos seus carrinhos para o aconchego do lar. Triste esquerda esta. Se fossem verdadeiramente solidários tinham pegado na massa e iam dá-la ao indigente mais próximo. Se ele a gastava em sopa, vinho, putas ou literatura clássica era lá com ele. É isso a esquerda, solidariedade e liberdade.

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Indignação Semanal

por Fernando Lopes, 24 Jan 12

(Coelho e Gaspar preocupados com indignações várias)

Estou indignado com tanta indignação e tão pouca ação. Temos assistido a uma espécie de homilia semanal.  Há quinze dias houve indignação com as nomeações de Passos para a EDP e Águas de Portugal. Na semana passada, com as declarações patéticas de um funcionário [e ninguém neste país representa melhor o funcionário e as suas idiossincrasias do que o biltre]. Esta semana, espumam de raiva por um jornalista ter sido dispensado após uma crónica menos amigável para com a cleptocracia angolana.

Está tudo muito certo, mas a indignação passiva não vale a ponta de um corno. Quem fez greve? Além do setor público ninguém ou quase. Quem participou nas manifestações? Poucos, muito poucos. Cada vez menos.

O povo português [do qual orgulhosamente faço parte] resolveu canalizar a indignação para o facebook e afins. É o ativismo de sofá no seu pior. Quando existe perigo iminente, moita carrasco. Cumprem-se os desígnios do chefe, do patrão, do governo.

Esta corrente mais parece um remoinho, sugando as indignações anteriores para dar lugar à da semana. Fiz tudo o que podia? Nem por sombras. Mas lutei e vou continuar a lutar, na rua, no trabalho, mesmo com alguns riscos pessoais associados. Quem for meu amigo está comigo. Os outros podem já ficar a pensar na indignação da próxima semana.

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Espelho

por Fernando Lopes, 23 Jan 12

Tenho com o espelho uma relação utilitária. Alinhamento do cabelo cortado a pente 4, o cuidado para não sangrar ao fazer a barba. Raramente olho para o outro lado, observo o homem que se escanhoa. Hoje perdi dois segundos a analisar o reflectido. Do jovem magro, quase franzino, de cabelo comprido, pouco resta. Quem me olha é um quarentão, pesado, olheiras fundas e cabelos grisalhos. E, no entanto, o brilho dos olhos está lá. O tempo exerce a função, torna baço o outrora resplandecente. Mas os olhos de menino, despertos para a vida, curiosos, atentos e inseguros, permanecem. Nem tudo está perdido.

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D. Sofia

por Fernando Lopes, 22 Jan 12

A amizade une-nos desde a 1ª classe. Quatro mosqueteiros que 41 anos depois mantêm o espírito de miúdos reunindo-se frequentemente. Não conheço mais ninguém que desde a infância tenha mantido contacto regular com os colegas da escola primária. O que nos uniu? Que marcas são estas que se prolongam por toda uma vida?

Fomos educados numa escola particular em que nunca - leram bem - nunca, nenhum aluno tirou menos que Bom no exame oficial que éramos obrigados a fazer no final da 4ª classe. O método? O terror. A D. Sofia dava aulas às quatro classes ao mesmo tempo. Quatro filas, cada fila uma classe. Ao fundo o retrato de Marcello Caetano e Américo Tomás. Entre eles o mapa do império português.

Assisti a tareias incontáveis, levei os meus tabefes, reguadas, fui vítima da palmatória. Cada vez que éramos chamados ao quadro as pernas tremiam como varas verdes. A D. Sofia, baixinha e mamalhuda, fazia uso da violência com frequência inusitada. O medo era tal que um colega chegou urinar-se. De medo puro. Assistimos [e fomos vítimas] de actos de violência que, hoje, postos no youtube dariam prisão. Não imaginam o combate e a resistência que foi o nosso ensino primário.

Talvez por isso unimo-nos nesta adversidade, de tal forma que a amizade subsiste até hoje. Raramente evocamos esses tempos. Os momentos difíceis potenciam a solidariedade, o apoio, a entreajuda. Uma lição de e para a vida que faz tanto sentido hoje como quando em 1970 cheguei àquele ringue.

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