Amanhã é o primeiro dia na nova escola da minha filha. Sei que não devia estar nervoso, mas não o consigo evitar. Rompem-se seis anos de rotinas e inicia-se uma nova fase. De um conhecimento incipiente das letras e dos números, passará para a escola a sério. Com horários, tarefas, trabalhos de casa. O ensino pré-escolar dá aos infantes ferramentas e conhecimentos que não tínhamos no meu tempo. O conhecimento do alfabeto e de operações básicas de adição e subtracção poderá ser uma preciosa ajuda para evitar o choque com este novo mundo, com muito mais trabalho e disciplina e muito menos brincadeiras. Realizará um desejo há muito expresso. Ler. Sempre que estou à volta de um livro ou revista, tenho dois pequenos olhos por cima da minha nuca. - Pai, o que diz aí? Eu explico a notícia ou a história, mas raramente consigo evitar um "Eu não sei ler!", pleno de frustração por a amálgama de letras ser ainda um código indecífrável. A descoberta das letras e de como estas formam palavras e frases será uma revelação há muito esperada, um novo mundo de histórias e acontecimentos que se irá abrir de para em par. Deveria encarar esta mudança com tranquilidade, mas parece que também eu vou à escola pela primeira vez.
A imaginação no que à obtenção de receita fiscal respeita é infindável. Desta vez as vítimas desta sofreguidão são as prostitutas de Bona. A decisão, suportada num duvidoso argumento de equidade fiscal, obrigará as mulheres da vida a pagar seis euros dia, aliás noite, para fazer trottoir nas ruas. Com um talão de parquímetro e multas até 100 euros, para dissuadir as tentativas de infracção. Temo que o Ministro das Finanças, mais sedento de receita que o diabo de almas, não tarde a instalar os "putímetros" pelas ruas das cidades portuguesas.
Durante dez anos uma reprodução deste Pêche de Nuit à Antibes, de Picasso, esteve na parede de minha casa. Hoje, vindo do nada, senti saudades de o contemplar. Partilho-o como se estivéssemos na minha velha sala.
O FMI encorajaria os Estados Unidos e a Europa a não reduzirem rapidamente as suas despesas públicas para não precipitarem situações recessivas. A diretora-geral aconselhou, ainda, o prosseguimento de políticas monetárias "estimuladoras".
A diretora-geral do FMI considerou como prioritário evitar a recaída na recessão do que endireitar à força as contas públicas no curto prazo, comentou a Eurointelligence. Viragem ao crescimento, em vez de austeridade, como prioridade, acrescentou esta agência europeia de informação. "Dito de um modo simples, ainda que a consolidação orçamental continue imperativa, as políticas macroeconómicas devem apoiar o crescimento."
Quem disse isto não foi nenhum perigoso esquerdista, mas Christine Lagarde, directora-geral do FMI. Publicado no Expresso. Ó pra ela a apontar o fracasso das políticas económicas liberais.
A arbitrariedade com que o jornalista Nuno Simas foi espiado fez cair o Carmo e a Trindade. Afinal se há espaço sacrossanto é o da imprensa. Com todo o poder e sentido de classe que lhe é reconhecido amplifica um caso preocupante, quer pela desregulação das secretas, quer pelo casuístico que encerra e que constitui um alerta a não menosprezar.
Ao que parece Nuno Simas, com obra publicada sobre o assunto e conhecedor dos meandros das secretas, teria a consciência do que lhe poderia advir tendo em conta a especificidade da sua investigação.
Mas o cidadão comum é espiado quando participa em manifestações e nunca vi tamanha preocupação. Quem tenha estado em participações cívicas e seja minimamente atento já terá observado uns senhores que não se parecem com repórteres de imagem [basta ver que estão muitas vezes munidos de uma handycam], a filmar a passagem da massa anónima de manifestantes. Todos sabemos que se compra software de reconhecimento facial, o que significa que qualquer participante numa concentração da CGTP, UGT, de qualquer partido ou movimento é facilmente identificável. Para quê e com que objectivo? Detectar ameaças à segurança nacional? Identificar falanges ou perigosos anarquistas e revolucionários? A mim que ninguém conhece, não tenho camaradas zelosos nem poder mediático, quem me protege?
O facebook, como todas as novas tecnologias, exerce um fascínio enorme sobre os portugueses. Dizem-no útil para reencontrar velhos amigos do liceu, parentes desaparecidos, ex-namorados(as) e uma miríade de almas perdidas no éter. Como bom português também tenho conta no facebook, face para os amigos. Entrei tarde e frequento-o cada vez menos. Aparte de meia-dúzia de colegas do liceu a ferramenta revela-se insuficiente para quem não busca. Depois há os eternos gaviões e as suas fêmeas. Sempre atentos a uma carinha laroca, um comentário insinuante, uma deixa para pular a cerca. Um colega particularmente afoito a desconstruir estas coisas, inscreveu-se como trintona sexy, divorciada e aparentemente disponível. Em dois dias tinha 250 "amigos" alguns deles casados e de quem conhecia as mulheres. Suponho que o inverso também será verdadeiro. Todos já ouvimos o caso do(a) cota que abandonou mulher (marido) e filhos por causa daquele borracho que conheceu no face.
Cada um sabe de si e não me cabe compete fazer julgamentos sobre o uso que dá a esta nova forma de comunicação. Para mim não dá. Desde os DJs frustrados que disparam dez de seguida, até aos que só escrevem coisas enigmáticas, a minha paciência e tempo são escassos para lidar com tal futilidade.
Mas o mais grave disto é que já não é só uma ferramenta de jovens ou adultos à procura de não sei muito bem o quê, mas uma ferramenta institucional. Cavaco Silva é o seu utilizador top. Quando devia comunicar olhos nos olhos aos portugueses, lança bitaites via face. Nunca li nada que ele lá tivesse escrito por puro medo de ser obrigado a fazer Like na sua página. Grande seria o drama nacional se entre tantos Likes, encontrasse uma alternativa à Maria Cavaca. Sabendo-lhe os gostos no que ao feminino concerne estou certo de que seria séria, dedicada, excelente dona-de-casa, com um passado impoluto e que nunca copulou que não na posição missionária. Ou talvez não ...
Acordo às 10:00. Entre o primeiro cigarro matinal [a que se seguirá uma infindável série] e um café, ligo o computador. Troco impressões com um amigo recente sobre música e abro o "Tempo Contado". O Mestre vai de férias com regresso em "Tempo Incerto". Enquanto o leio tento compreender-lhe as angústias e incertezas. "O que escrevo raro me satisfaz". Pois não é assim com todas as almas que se questionam, que há muito abandonaram as verdades absolutas, conscientes que este limbo em que vivemos, este mundo ao contrário, nos gera mais aflição do que exaltação? Desde há um ano a esta parte as suas "estórias", dúvidas, derrotas e vitórias são também as minhas, num processo de identificação entre o pequeno e o grande homem. Que volte depressa exorcizando demónios e fantasmas. O meu dia sem o ler é um bocado mais triste.
Quando em 1991 ouvi pela primeira vez "Ten", algo estava a mudar na cena musical. O movimento grunge já não era um bebé, há muito que em Seattle entre chuva e angústia uma nova forma de rock caminhava. Já rodavam cá em casa Soundgarden e Alice in Chains. Um amigo de infância com um gosto por música a roçar o obsessivo [+ de 4.000 CDs e 600 LPs nas prateleiras] revelou-me "Ten" dos Pearl Jam. Foi há 20 anos atrás.
Esta música é sobre uma dura realidade já muito falada no purgatório. Os sem-abrigo.
Freezin', rests his head on a pillow made of concrete, again. Oh, feelin' maybe he'll see a little better set a days, ooh yeah Oh hand out faces that he sees time again ain't that familiar, ooh yeah Oh, dark grin he can't help when he's happy, looks insane ooh
Even flow, thoughts arrive like butterflies Oh, he don't know so he chases them away-yeah Oh, someday, yea, he'll begin his life again Life again, Life again
Kneeling, looking through the paper though he doesn't know to read, ooh yeah Oh, praying now to something that has never showed him anything Oh, feeling understands the weather of the winters on its way Oh, ceilings few and far between all the legal halls of shame, hey
Even flow, thoughts arrive like butterflies Oh, he don't know so he chases them away-yeah Oh, someday yet he'll begin his life again Oh, whispering hands gently lead him away Him away, him away Yeah Woo, Ah Yeah, Fuck It
(Guitar Solo - Breakdown)
Even flow, thoughts arrive like butterflies Oh, he don't know so he chases them away-yeah Ah someday yet he'll begin his life again, yeah Oh, whispering hands gently lead him away Him away, him away Yeah Woo, Uh huh yeah, yeah yeah, momma mommy
Segundo a SIC a aplicação de um imposto extraordinário aos 200 mais ricos de Portugal renderia mais de 800 milhões de euros ao erário público. Isto a uma generosa taxa de 1,8% do total do rendimento bruto anual. Ao comum dos portugueses, que tem todo o seu rendimento de trabalho dependente, é "atribuída" uma taxa média de 3,5%.
Como é que 200 portugueses podem gerar mais receita do que todos os trabalhadores por conta de outrem?
Porquê uma sugestão de 1,8% como a taxa máxima francesa e não 3,5% como o comum dos portugueses?
Como é que chegamos a um ponto em que achamos esta assimetria na distribuição rendimentos, "normal"?
As causas fracturantes do BE já se tornaram um ex-libris deste partido.O Bloco tem momentos pequeno-burgueses confrangedores. Numa situação de emergência social, com milhares no desemprego e outros tantos na fila para esse flagelo, num momento em que importaria defender os interesses dos trabalhadores e provar a capacidade de mobilização de uma multidão de insatisfeitos com este modelo social e económico, o BE, incapaz de levar o povo às ruas, transporta para o parlamento as célebres "causas fracturantes". Com uma maioria de direita e embora tratando-se de matéria de consciência, logo sujeita ao livre-arbítrio, regressamos ao quixotismo puro e duro, sem sustentação social ou maioria política que permitam levar estas propostas avante.
Respeito os direitos das minorias. Nada me move contra a adopção por casais homossexuais. Compreendo e aceito como boas muitas das razões que os sábios convocados irão dar para a eutanásia. Mas é esta a temática que preocupa o povo português? Quem no dia a dia se debate para pagar água, luz, alimentação? Por muita consideração que me mereçam as minorias, há uma imensa maioria com a mais prosaica das preocupações. Sobreviver. E é para esses que as atenções deviam estar voltadas.
O resto são questões periféricas e de costumes a ser debatidas em outros momentos. Já por aqui disse que o momento é de combate na rua. Pacífico, mas firme e inequívoco. Com estar iniciativas o BE parece uma espécie de emplastro da política portuguesa, colocando-se aos saltinhos atrás das câmaras de TV para uma efémera notoriedade. Notoriedade essa tristemente inconsequente.
Para o leigo em ciência jurídica, longe das nuances e manobras de bastidores, o fascinante é a celeridade da justiça na América. Incapaz de analisar se o nosso sistema protege demasiadamente o acusado, o facto de processos complexos como os de DSK e Madoff serem resolvidos em meia-dúzia de meses deixa-me perplexo. Pois se em Portugal até para uma operadora de comunicações móveis cobrar uma factura precisa levar o caloteiro a tribunal?!
Caso Madoff fosse português, estaria com termo de identidade e residência e os executores da justiça na fase de "elaboração do processo", ao que se seguiria a audição de cada uma das testemunhas e lá para 2100 sairia da excelsa cabeça dos Exmos. Juízes uma sentença esdrúxula que se veria contestada ad nauseam até ao Supremo Tribunal dos Direitos dos Responsáveis por Esquemas de Ponzi. Goste-se ou não dos métodos americanos, sejam eles imperfeitos ou não em relação aos nossos, um facto salta à vista. A justiça é célere e quem a procura pode esperar por uma sentença no seu tempo de vida! Que bonito seria se assim fosse em Portugal.
Ocasionalmente não sei bem se sou de esquerda ou de direita. Embora seja demasiado cedo para se compreender integralmente ou conjecturar o que se irá passar na Líbia, é evidente que o regime de Khadafi caiu de podre. A esperada resistência em Tripoli não passou de pífia, com a nota caricatural de uma jornalista de pistola na mão. O day after é perigoso e o Conselho de Transição Líbio necessita de tratar a situação com pinças e desarmar a população o mais rapidamente possível. É certo que o índice de bem-estar era superior na Líbia relativamente a muitos outros países africanos. Dou isso de barato. Mas parece que essa relativa comodidade não foi suficiente para calar o desejo de liberdade de um povo. O silêncio comprometido de alguma esquerda portuguesa prova um certo lado acomodatício. O conforto sem liberdade é frágil e cai às mãos do povo que prefere tomar para si o futuro.
(*) de um conto homónimo de Gabriel García Márquez
Gosto de ouvir o Marcelo, não tanto pelo que diz mas pela forma como o faz. É uma mente delirante, imaginativa (vichyssoise, lembram-se!) e ocasionalmente faz uns biscates à malta do PSD. Hoje, de um modo que o Álvaro nunca conseguiria (e é isso que distingue os políticos dos tecnocratas), anunciou a continuação do TGV. Fundos estruturais, interesse da Alemanha e França em vender tecnologia e material circulante, está tudo lá. Deu-se ao luxo de antecipar que o Ministro da Economia vai comunicar tudo isto às mijinhas ... Ahh ganda Marcelo, quando não se tem políticos no governo procede-se à subcontratação!